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terça-feira

23

outubro 2012

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Em direção ao Pearl Harbor cibernético

Escrito por , Postado em Destacadas, Tecnologia

ciberguerra guerra cibernetica

O governo dos Estados Unidos confessa sua preocupação pela escalada da ciberguerra com o Irã, que atacou sistemas informáticos norte-americanos em respostas às agressões virais sofridas.

Tão silenciosa é esta guerra que a imensa maioria do planeta ainda não se inteirou de que está acontecendo com ferocidade há algum tempo. Os que estão nela a vivem, entretanto, com crescente angústia. Por exemplo, Leon Panetta, que acaba de declarar que seu país está prestes a “um Pearl Harbor cibernético.  A que se refere o secretário de Defesa dos Estados Unidos? Pois a uma recente série de ataques contra sistemas informáticos da indústria petroleira saudita e instituições financeiras norte-americanas atribuídos, segundo informou o International Herald Tribune, às unidades de defesa contra a ciberguerra da República Istâmica do Irã.

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Guerreiros espaciais do regime dos aiatolás? Sim, existem desde 2011 como resposta a uma prévia ofensiva de pirataria informática de seu programa nuclear universalmente atribuída à colaboração dos Estados Unidos e Israel. No início, sua tarefa consistia em fazer de antivírus dos sistemas iranianos, mas, segundo as fontes citadas pelo Tribune, poderiam haver passado à contraofensiva com os ataques que, em agosto, afetaram a companhia petroleira estatal saudita Aramco e tal vez os que impediram aos clientes de bancos norte-americanos acessar online suas contas.

Ainda que sejam os vilãos da história, não foram os iranianos os primeiros a apertar este botão. Fê-lo um prêmio Nobel da Paz, o mismíssimo Barack Obama. Em seu primeiro mandato presidencial, Obama se caracterizou por um modo peculiar – mais contemporâneo, por assim dizer, e, para ele e seus compatriotas, menos traumático – de fazer a guerra: o desenvolvimento da ciberguerra (ciberespionagem e cibersabotagem) contra o Irã e o o uso massivo de drones – aviões sem humanos a bordo – para atacar objetivos em países como Somália, Iemen, Afeganistão e Paquistão. Pelo contrário, reduziu a presença de tropas físicas norte-americanas em zonas conflitivas.

Na última noite de terça para quarta-feira, em seu segundo debate televisivo desta campanha presidencial, Obama atacou Romney a proposito de uma suposta “brandura” no caso do assalto ao consulado norte-americano em Bengasi. Tinha razão: não é para nada o que descrevem esses belicosos à antiga que são os republicanos dos Estados Unidos: é um frio, inteligente e implacável comandante na chefia das novas formas de fazer a guerra no século XXI.

Mas as dúvidas de Obama desvaneceram logo e terminou aprovando a continuidade dessa forma de disputa, conhecida na Casa Branca, no Pentágono e na CIA como Olimpic Games. Inclusive fez mais: decretou sua escalada. No início de julho, The New York Times publicou uma extensa informação que dava conta de como Obama “ordenou em segredo um aumento dos ataques sofisticados aos sistemas informáticos das indústrias iranianas de enriquecimento de uranio, expandindo, assim, de modo significativo o primeiro uso continuado pelos Estados Unidos de ciberarmas”.

Ao mesmo tempo, Obama instou os serviços de inteligência civis e militares norte-americanos a estreitar a colaboração nesse frente com os iranianos. Depois de negá-lo inicialmente, com objetivo de não confirmar suas próprias debilidades, o regime iraniano terminaria reconhecendo que trojanos, vírus e programas malignos vindos do exterior rastrearam seus esforços.

Em 2010, Richard A. Clarke, que foi chefe dos serviços antiterroristas dos Estados Unidos com Bilm Clinton e George W. Bush, publicou um ensaio intitulado Cyber War (publicado em espanhol por Ariel com o título Guerra na rede). Profetizava uma III Guerra Mundial no ciberespaço para a que já se estavam preparando potencias como Estados Unidos, Israel, Rússia e China. Assim o resenhou, muito criticamente, a revista Wired: “Encontrarão aqui o Livro das Revelações voltado para escrever para a era da internet, com o Fim dos Tempos anunciado pelos Quaro Cavalos Troianos do Apocalipse”.

É Flame o primeiro desses cavalos? No final de maio, o organismo público iraniano dedicado à luta contra a pirataria informática (CERT por suas siglas em inglês) anunciou que havia localizado esse vírus, o mais maligno dos jamais inventados.

Leia também: Guerra cibernéticas: Israel e Estados Unidos, criadores do vírus Flame

Flame é um conjunto de programas que realiza múltiplas tarefas de espionagem e sabotagem: grava conversações, permite controle remoto do computador, tem Bluetooth que se apropria dos telefones móveis próximos, copia e transmite dados à distância, vai se atualizando, é indetectável pelos antivírus hoje existentes… Segundo observou Douglas Rushkoff na CNN, “tem todos os indícios de constituir um ciberataque maquiado por um Estado nação”.

Sua descoberta foi obra do laboratório especializado que o russo Eugene Kaspersky dirige em Moscou. Kaspersky o nomeou de “caixa de Pandora”, disse que o uso de um vírus como este poderia terminar afetando serviços civis nacionais inteiros como redes elétricas, indústrias energéticas, redes bancárias ou sistemas de tráfego aéreo, pelo que, acrescentou, deveriam ser proibidos como em seu dia o foram as armas químicas e biológicas. “Estou assustado, acredite”, declarou.

Leia também: Especialistas temem guerra cibernética no futuro

Certamente, os Estados Unidos não reconhece oficialmente nenhuma relação com esses vírus informáticos que minam o programa nuclear iraniano. Nem mesmo Israel.

Isso sim, The New Yorker informa que tão somente a Força Aérea dos Estados Unidos conta já com 7.000 ciberguerreiros em bases do Texas e Georgia. Quantos mais haverá em outros departamentos do Pentágono, da CIA e de outros órgãos do governo federal norte-americano?

Criado em 2009, sob a presidência de Obama, com sede oficial em Fort Meade (Maryland) e dirigido pelo general Keith B. Alexander, United States Cyber Command (USCYBERCOM) é o nome do organismo que dirige as unidades ciberespaciais da Força Aérea norte-americana. Agora parece haver surgido um sério rival nas unidades iranianas especializadas que dirige o general Gholamreza Jalali e que poderiam estar detrás dos últimos ataques a sistemas sauditas e norte-americanos. Ainda não soou um só disparo na próxima guerra do Golfo, mas, a golpes de teclado e mouse, esta já está acontecendo no ciberespaço.

* Texto “Hacia el Pearl Harbor cibernético”, de Javier Valenzuela, publicado em El País, em 21 de outubro de 2012. Tradução: Karina de Freitas.

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