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terça-feira

17

julho 2012

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Museus e artemídia: estratégias de conservação das mídias variáveis

Escrito por , Postado em Destacadas, Mercado da Arte Digital

"The Erl King", Grahame Weinbren e Roberta Friedman

Nas últimas décadas temos acompanhado uma explosão de formatos de mídias que tem servido no processo de criação da arte. A deterioração física dos componentes, a rápida obsolescência tecnológica e as especificidades do equipamento e formato da obra são aspectos que apontam para a emergência da conservação dos projetos de artemídia. A cada novo desenvolvimento novos desafios surgem par a preservação da artemídia. As novas mídias solicitam modelos e critérios para a documentação e a conservação dos processos, do contexto e da instabilidade.

No último artigo da série Panorama do Mercado da Arte Digital, abordava os desafios dos museus para a conservação da arte digital. Afirmava que, ao adquirir uma obra de artemídia, o museu também adquiria a responsabilidade pela sua conservação. E para tal, são necessários sistemas eficazes de restauração, preservação e arquivamento das obras.

Uma solução inicial para os museus seria instituir um departamento específico dedicado às novas mídias, do qual se encarregassem conservadores profissionais em tecnologia digital. Ao redor do mundo, iniciativas para a conservação de obras de artemídia tem surgido com o proposito de desenvolver estratégias que busquem manter a integridade da obra, desenvolvendo vocabulário próprio para os fichamentos dos catálogos, padrões que permitam intercambiar os metadados recolhidos pelas instituições para seus arquivos, e ferramentas para catalogar a arte instável baseada em processo.

The Variable Media Network, INCCA (International Network for the Preservation of Contemporary Art), Media Matters: collaboring towards the care of time-based media, Unstable Media Project – V2, DOCAM (Documentation and Conservation of the Media Arts Heritage), INSIDE Installations, IMAP (Independent Media Arts Preservation). Essas são algumas das ações isoladas ou colaborativas para o desenvolvimento de abordagens e estratégias de conservação da tecnologia, a fim de permitir o contínuo funcionamento da artemídia.

The Variable Media Network

“Net Flag”, Mark Napier

The Variable Media Network, fundado pelo Solomon R. Guggenheim Museum e a Daniel Langlois Foundation for Art, Science, and Technology, inclui o Berkeley Art Museum, o Walker Art Center, o Franklin Furnace Archive, o Rizome.org, e o Whitney Museum of American Art.

The Variable Media Network trabalha com o conceito de “mídias variáveis” desenvolvido por Jon Ippolito, curador de Media Arts do Solomon R. Guggenheim Museum, que abarca obras de arte realizadas em distintos formatos, tais como instalações, performances, cinema, vídeo, fotografia e artemídia. Para além do acúmulo de meios, “as mídias variáveis” se referem às obras de arte que podem ser migradas a novos materiais, meios e equipamentos, ser atualizadas e adaptadas aos contextos cambiantes.

O objetivo do programa coordenado por Jon Ippolito e por Alain Depocas, diretor do Centre for Research and Documentation (CR+D) da Daniel Langlois Foundation, é estabelecer padrões que possibilitem a conservação das obras de arte cujos formatos tendem à rápida obsolescência da tecnologia empregada.

The Media Variable Network busca identificar um conjunto de estratégias de conservação aprovadas pelos artistas, com ajuda de diversas ferramentas, dentre as quais está o Variable Media Questionaire (VMQ). Elaborado por Ippolito, o VMQ surgiu com um design de uma ferramenta informativa semelhante a  um questionário interativo relacionado à base de dados para auxiliar artistas e profissionais do museu na compreensão das necessidades da obra, estabelecendo possíveis problemas a ter em conta na hora de exibir uma obra de artemídia. O questionário investiga junto aos artistas, autores das obras adquiridas, as possíveis considerações dos projetos uma vez em que o meio original para o qual tenham sido concebidos se torne obsoleto.

Conforme explica Christianne Paul, curadora adjunta do new Media Arts do Whitney Museum of American Art, pesquisadora e diretora de programas de graduação de novas mídias, The Variable Media Network é uma iniciativa cujo processo de conservação se centra em uma série de comportamentos (instalada, executada, reproduzível, duplicada, interativa, codificada, contida, em rede) e quatro estratégias principais de conservação das obras de arte (emulação, migração, reinterpretação e armazenamento).

Comportamentos da mídia variável

Como pontua Vanina Hofman, diretora do Taxonomedia, “os comportamentos substituem a antiga noção estendida de formato. Por exemplo, uma peça de videoarte não será descrita com o mesmo comportamento se estiver gravada em vídeo analógico ou em vídeo digital. No primeiro caso, será catalogada como “reproduzível”, definição que inclui aquelas obras que perdem qualidade ao serem copiadas. Se a videoarte tivesse uma base digital seria descrita como “duplicada” ou “intercambiável”, grupo que abarca aquelas obras que não perdem qualidade ao serem copiadas, podem ser clonadas.”.

Estratégias de conservação da mídia variável

“The Erl King”, Grahame Weinbren e Roberta Friedman

Uma vez determinado(s) o(s) comportamento(s), procede-se uma reflexão para as melhores estratégias para conservar a obra. Sejam elas:

. Emulação: “recriar” o software, hardware e os sistemas operativos por meio de emuladores, programas que simulam o entorno original e suas condições. Diante da ineficácia de armazenar os arquivos digitais em um CD, a emulação visa a criar um fac-símile em uma mídia diferente. Isso significa reprogramar a obra em um sistema vigente, respeitando as intenções do autor, como no caso de um novo software, que emula um velho hardware. Este método tende a igualar as características visuais de uma obra tame-based media através do uso de tecnologias mais recentes. É uma estratégia muito custosa e pode modificar a intenção do artista com respeito ao uso de certo tipo de tecnologia.

. Migração: atualizar a obra para a versão mais recente de hardware ou software. Neste caso, não há a recriação da peça em mídia diferente como no caso da emulação, a migração consiste em atualizá-la segundo normas contemporâneas, aceitando todas as mudanças que isso pode gerar visual e sensorialmente. O objetivo é copiar os conteúdos digitais a formatos mais atuais antes de que o suporte original se torne obsoleto ou se deteriore. Este processo supõe uma mudança do suporte original, a utilização de diferentes equipamentos de reprodução e a inevitável perda de informação. Em alguns casos os artistas podem optar pela proibição de qualquer variação da forma e estrutura original da obra, dotando-a de algo parecido a uma data de validade.

. Reinterpretação: seria esta a estratégia de preservação mais radica. “Refazer” uma obra em um contexto e entorno atuais, cada vez que é apresentada. Isso requer a participação direta do artista para definir a forma correta de ser instalada ou mesmo as novas tecnologias que devem ser empregadas para evitar afetar a intenção ou significado da obra. Logo, reinterpretar uma obra implica não apenas a atualização em nível tecnológico como também o diálogo que essa obra teria com seu contexto.

. Armazenamento: esta estratégia tem um caráter mais voltado à conservação e é usada com maior frequência nos museus. Consiste em armazenar todos os formatos e equipamentos originais. Isso implica a perda da informação contida nos suportes quando a tecnologia se torne obsoleta ou os equipamentos deixem de funcionar.

As estratégias seguem sendo absolutamente válidas hoje, embora, como vimos, de alguma forma afeta a intenção da obra de uma maneira mais ou menos radical. Além disso, essas estratégias não atendem a vários dos novos formatos das práticas artísticas. Para Vanina Hofman, talvez uma questão importante seria centrar-se no custo que a aplicação dessas estratégias implicam. De fato, o processo de conservação da artemídia é muito lento comparado ao grande volume de produções existentes. Enquanto esse processo não é acelerado, a realização de projetos de documentação e arquivamento deveriam ser incentivados, com o propósito de que ao menos possa ser o vestígio possível dessa produção cultural.

No próximo artigo, apresento outros projetos que tem investigado os protocolos de preservação e documentação da artemídia.

Leia os artigos da série: Panorama do Mercado da Arte Digital

1 Comentário

  1. Rubens Ramos

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