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segunda-feira

29

outubro 2012

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Poder público não consegue perceber grandeza do Masp

Escrito por , Postado em Curadoria de Conteúdos em Arte Contemporânea, Destacadas

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O Museu de Arte de São Paulo (Masp) está abandonado pelos poderes públicos, especialmente o federal, afirma Teixeira Coelho, curador da instituição. “Não há no poder público uma disposição para perceber a grandeza do Masp“, diz ele.

Com o mais importante acervo do hemisfério sul, o museu saiu da crise institucional, que culminou com o corte de eletricidade, em 2006, mas não tem fôlego para implementar exposições de artistas brasileiros contemporâneos que considera fundamentais.

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Com a bilheteria e o apoio de R$ 1,2 milhão do governo municipal, o Masp obtém verba para se manter apenas por quatro dos 12 meses do ano – seu orçamento é de R$ 12 milhões. Os outros oito meses do ano dependem de doações e patrocínios.

Isso, para Coelho, representa a falta de política dos governos para instituições culturais.

Ele crítica também que, a dois anos da Copa, o governo federal não tenha dado início a um projeto cultural, nos moldes do que Londres organizou durante a Olimpíada.

O Masp continua blindado. Como seu acervo é tombado, nós pedimos assento em seu conselho, junto com os governos estadual e municipal, mas eles não respondem. É preciso abrir sua administração e não ficar apenas pedindo dinheiro“, disse à Folha José do Nascimento Júnior, diretor do Ibram (Instituto Brasileiro de Museus), vinculado ao Ministério da Cultura.

Quanto à Copa, Nascimento Júnior diz que o governo elaborou um projeto de R$ 250 milhões, mas está buscando verba.

A ministra Marta Suplicy encontrou-se com o ministro do Esporte [Aldo Rebelo] nessa semana para tratar disso.

Em suas críticas aos governos, Teixeira Coelho poupa Marcelo Araujo, o secretário de Cultura do Estado de São Paulo: “Tenho boas expectativas sobre sua gestão. Ele é uma pessoa da área, que sabe o que é necessário“.

Araujo concorda que o Estado precisa dar apoio ao Masp. “Estamos realizando um processo de aproximação com o Masp para compor parcerias“, afirma o secretário.

Para Coelho, parte das dificuldades enfrentadas pelo museu tem a ver com o preconceito em relação ao centralismo da gestão Júlio Neves (1994-2008), que extinguiu a figura do curador.

Existe uma coisa chamada hábito cultural, que faz com que não se mude o modo de pensar uma coisa“, diz.

Leia a entrevista:

Folha Estamos a dois anos de um megaevento na cidade, que é a Copa do Mundo. Em Londres, por conta das Olimpíadas, a Tate inaugurou uma nova ala. O Masp pretende fazer algo?*

Teixeira Coelho - Um dos primeiros eventos da Olimpíada, em Londres, de que tive conhecimento, foi um concerto de música clássica que eu ouvi pela rádio, meses antes de ela começar. E foi um evento anunciado como parte da Olimpíada. Os ingleses cuidaram disso. As pessoas vêm para as cidades ver dois ou três jogos de futebol, mas fazem também turismo. E buscam cultura.

Quais são os planos do governo brasileiro para a Copa? Estamos a dois anos e nada foi programado. Sozinho o MASP não pode fazer mais do que já faz.

O Masp não foi procurado?

Nada. E eu não sou de ficar aqui sentado esperando. Quando busquei o governo para discutir caminhos de cooperação, me disseram: “Na semana que vem, agora não posso, agora vou viajar…” Se existe um Ministério da Cultura, são eles que deveriam nos procurar.

Então não existe uma política federal para as instituições culturais?

Não. Claro que se você falar com o Instituto Brasileiro de Museus, o Ibram, eles vão dizer que possuem uma política e que o Masp precisa aderir ao sistema nacional de museus. Mas se você trocar em miúdos, nós nunca fomos capazes de ver nada de concreto.

Mas e os editais que eles promovem?

São editais de valores baixos, que pouco representam para o Masp. Eu aprendi que é preciso tratar desigualmente os desiguais. Isso não é tão antidemocrático como parece, pois significa tratar com mais intensidade os desprotegidos e com menos intensidade os mais favorecidos. Isso significa também que determinadas instituições, por sua importância, precisam ser tratadas de forma adequada. Não se trata o Masp como um pequeno museu de memória do interior.

O atual governo tem priorizado o apoio a projetos do Norte e Nordeste. Você concorda com essa política?

Essa é uma questão importante de política cultural. Se você vai na rua Florêncio de Abreu, em São Paulo, lá existe ferragem, na rua da Consolação, produtos de iluminação. O que quero dizer com isso? Existe em cultura algo que diz respeito à concentração. Na universidade isso é chamado massa crítica. Concentrando você pode irradiar. No Brasil, antes de haver concentração, chega um monte de apressadinhos que querem descentralizar.

Isso foi um efeito perverso da Lei Rouanet. Desconcentrou, pulverizou, e as instituições foram rebaixadas a um nível de tábula rasa. Algumas privadas se fortaleceram, mas as públicas não. Não foi só o Masp quem sofreu, o MAC também. O pensamento tem sido “o Masp que se vire sozinho, ele é elitista, tem boas obras”. Mas ele não se vira sozinho. O Louvre ainda recebe 30% de verbas do Estado, se não me engano.

Quanto o Masp consegue de bilheteria?

É um grande tema. Da bilheteria, 66% não pagam nada: idosos e crianças. Em qualquer lugar avançado do mundo, idoso às vezes tem redução de 10%. Assim, 33% dos que entram no Masp pagam alguma coisa, e o preço do ingresso está congelado há seis anos. Então, é quase nada.

O que isso representa de fato?

Com 800 mil visitantes por ano, a bilheteria paga cerca de dois meses de manutenção do museu. Assim, a Prefeitura de São Paulo, que repassa por ano, por conta de um decreto, cerca de R$ 1,2 milhão, paga um mês e meio, dois meses de manutenção do museu, os visitantes outro tanto. E os quase oito meses, já que o orçamento do Masp está em R$ 12 milhões, quem paga? Doações e patrocínio.

Com as questões do passado recente do museu, como a centralização do ex-presidente Júlio Neves, você acha que o Masp sofre preconceito?

Sim. Existe uma coisa chamada hábito cultural que faz com que não se mude o modo de pensar uma coisa. Certas coisas grudam e vão ficar. Se todo mundo tivesse mente aberta, seria possível mudar de opinião a respeito das coisas.

Eu sabia de tudo isso quando entrei no Masp. Por que aceitei? Ou você fica na arquibancada xingando o juiz, e eu cansei de xingar, ou pega a camisa e vai jogar. Eu escrevi em vários lugares, inclusive na Folha, que o problema do Masp era que ele não tinha curador. Possivelmente por isso fui convidado e o que eu podia responder? Seria muito acadêmico não aceitar, eu não sou acadêmico a esse ponto.

Mas se a elite intelectual ainda descrê do Masp, a população o torna ainda um dos museus mais visitados. É meio esquizofrênico, não?

Parafraseando um político famoso, o público do museu quer ver arte e não está interessando em questões que interessam a outros.

Um fenômeno recente interessante foram as filas para ver os impressionistas no CCBB, sendo que o Masp possui obras dos mesmos artistas com a mesma qualidade…

Aquilo é um evento e o Masp não é. Mas eu não compartilho com a ideia que um evento é necessariamente uma besteira. Etimologicamente, evento é algo que rompe uma rotina.

Se os impressionistas no CCBB servem para romper a rotina dos impressionistas do Masp, ótimo! Acorda, desperta, dá um choque. Mas, fila não mede muita coisa. Aqui também tivemos filas para o Caravaggio e eu acho isso algo indigno. Eu não faço fila para ver arte. Estou lutando para resolver esse problema de filas.

Por outro lado, o Masp ainda tem uma dívida com os artistas brasileiros. O Prêmio Masp, pelo qual venho batalhando desde o início de minha gestão e que só concretizamos neste ano, é uma forma de resgatar a divida do Masp com os artistas brasileiros. Mas fizemos um programa de exposições de artistas brasileiros e pergunta-me se conseguimos patrocínio!

Até hoje temos artistas convidados, que fizeram projetos, mas não conseguimos levantar patrocínio porque as empresas não pagam pelo artista brasileiro e o bolso do Masp não consegue fazê-lo.

Isso não é outra perversidade das leis de incentivo, pois os patrocinadores só apoiam nomes fortes?

Eu aprendi que é preciso ver as coisas por perspectivas distintas. Tem patrocinador que não está preocupado com rendimento de mídia, mesmo porque alguns, não me pergunte quais, não querem que se coloque sua logomarca.

E por que eles apoiam Caravaggio? Porque é conhecido e porque o patrocinador gosta dele, sinceramente! Agora se eu quero mostrar um artista conceitual brasileiro, o patrocinador não o conhece porque não sabe o que é arte conceitual. Ele não está errado, é a instituição que tem que dar um jeito de mostrar aquilo que ela acha que é importante. Só que o museu tem que lutar para ficar à tona. Não é digno que um país deixe um museu lutando para ficar à tona! O país tinha que encontrar um jeito para que o Masp navegasse.

Mas o Brasil vive uma fase de uma euforia no mercado, isso não se reflete nas instituições?

Nós continuamos, do ponto de política cultural, do mesmo modo que estávamos há muitos anos atrás. Alguma instituição tem sucesso porque se renova, como Fundação Bienal, que a duras penas consegue se manter, e outras nem tanto. Então, eu não vejo essa melhora do mercado se refletir nas instituições de arte, como o Masp, um museu que não tem, praticamente, apoio público, com exceção de pequeno aporte do município.

A indiferença e o alheamento em relação às questões de cultura e arte no Brasil continuam os mesmos, tanto do poder público, da iniciativa privada ou da sociedade civil. Eu não sou inimigo da lei Rouanet, porque sem ela o Brasil seria uma cela gelada em termos de cultura; mas o fato é que ela não acostumou a iniciativa privada a colocar dinheiro próprio na cultura.

Ao mesmo tempo, foram criadas instituições como o CCBB, que ajudam a movimentar o setor. Mas há brasileiros que doam dinheiro ao MoMA e não nada para o Masp ou outras instituições do Brasil.

O Masp foi criado por um mecenas, o Assis Chateaubriand. Há mecenas hoje?

Os mecenas acabaram. Quando eu estava no MAC eu ouvi de um colecionador que doações como as do Ciccillo e do Chateaubriand nunca mais, porque ele tem herdeiros e os herdeiros fazem questão de continuarem proprietários das obras. Naquele tempo a arte não tinha alcançado também o patamar econômico que tem hoje, não tinha os mesmos preços de hoje. Aquela fonte secou.

A isso, se acresce o absoluto desconhecimento pela sociedade civil das funções de um museu. A sociedade americana sabe o peso disso, o mesmo na Europa.

Mas as dificuldades do Masp não têm uma relação por conta da centralização, por anos, de um grupo liderado pelo Júlio Neves?

O Brasil é um país provinciano no sentido de que rixas ideológicas, familiares ou pessoais comandam o cenário e é impossível colocar isso em segundo plano. Se a sociedade que mantém o Masp tem sua parcela de responsabilidade, os poderes públicos também.

Há dois anos o Masp ficou 18 meses sendo investigado por uma promotora de Justiça e nada de significativo foi encontrado e o Masp venceu em primeira instância. Não há no poder público uma disposição para perceber a grandeza do Masp. A Pinacoteca encontrou na OS [Organização Social] uma forma de se manter, mas pelos estudos que o Masp fez, não valeria a pena passar a ser uma OS. Por cinco anos me encontro me encontrei com o Ministério da Cultura e nada acontece!

Uma das primeiras iniciativas da Marta Suplicy foi visitar o Masp…

Tentarei conhecer suas intenções a respeito.

Você tem uma boa expectativa em relação à ela?

Não tenho nenhuma expectativa em relação a ninguém, sem querer ser sarcástico. É que eu sei que, estruturalmente, o Estado brasileiro é indiferente à cultura e à arte. Nós conseguimos sobreviver, mas é difícil, até porque a lei Rouanet dificulta, já que ela é feita ano a ano, não há como planejar dois ou três anos adiante.

A gente tem que planejar uma mostra com maior antecedência, mas não tem autonomia econômica para concretizá-la.

E o Marcelo Araújo, como secretário de Estado?

Tenho boas expectativas sobre sua gestão, ele é uma pessoa da área, que sabe o que é necessário.

Qual é a vocação do Masp, hoje?

Quando fui chamado para ser curador, há quase seis anos, eu propus ao Masp uma linha de atuação baseada na configuração dele. Esse museu aqui, guardadas todas as proporções, é uma espécie de Metropolitan pequeno, fruto da política inicial do museu que era inclusiva: ele tem arte europeia, arte pré-colombiana, cerâmica italiana, etc, típica ideia de um museu do século 19.

Então não há porque ignorar a coleção do museu e não constituir um repertório a partir dele. Hoje, temos seis mostras prontas, a partir do acervo, que se revezam em mostras de longa duração. O museu, então, tem um repertório, como células que apontam para possibilidades de exposição. Surgindo interesse de outro museu, a mostra está pronta para viajar.

O museu não tem como seguir na linha de aquisição, como quando o Chateaubriand era vivo, não porque não se queira, mas porque os preços estão absurdos, e para que ele não se encerre em sua coleção, é preciso que ele se alimente com exposições de arte contemporânea, o que também temos feito. A Bienal percebeu essa tendência do MASP e ela também acontece aqui neste ano, com dois artistas.

Uma prática cotidiana hoje é produtores organizarem exposições para os museus, terceirizando seus serviços. Os museus não têm mais capacidade de organizar mostras sozinhos?

Não é bem terceirizar. Qualquer museu hoje em dia apresenta exposições de outro lugar, mesmo o MoMA, e isso não é um demérito. Você não oferece uma exposição do Caravaggio para a tendinha da esquina. Mas terceirização é uma tendência internacional.

Não quer dizer que seja uma política do Masp, mas faz parte de uma pulverização de algo que antes era muito concentrado. Hoje o museu não é está mais isolado, tem a Bienal, as feiras, os centros culturais, produtoras independentes. Um museu não dá conta sozinho. Temos aqui só três curadores, somos poucos.

E o que representa o prédio ao lado, que está sendo reformado, para o Masp?

A previsão é que ele seja inaugurado no primeiro semestre de 2014. Nós recebemos uma doação de 2.000 obras de arte asiática, do colecionador Fausto Godoy, e parte dela será exibida onde hoje é o restaurante, que vai para o novo prédio. Uma parte da administração também vai para lá, assim como a lojinha, e nele faremos uma escola de arte revolucionária para a cidade.

Em que sentido?

Eu não posso avançar nesse assunto, mas será de fato diferente, porque vai mexer com essa ambiente de São Paulo.

Em 2014 será o centenário do nascimento de Lina Bo Bardi e o Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi não quer que a mostra comemorativa ocorra no Masp pois o museu não apresenta o projeto expositivo dos cavaletes na coleção. Por que o acervo permanente continua sem usar os cavaletes?

Por que deveria continuar? Por que uma proposta expositiva deve continuar para sempre? O Brasil é um país profundamente patrimonialista e preservacionista. É inconcebível que se queira manter uma mesma maneira de expor eternamente. Tentaram tombar os cavaletes do Masp no Condephaat e eles perceberam que isso não era possível. Por outro lado, a primeira exposição que fiz como curador do MASP, com o artista Alex Flemming, utilizou os cavaletes da Lina…

@Folha de São Paulo

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