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terça-feira

24

julho 2012

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Preservação da artemídia: entrevista com Jon Ippolito

Escrito por , Postado em Destacadas, Mercado da Arte Digital

jon-ippolito

Jon Ippolito é artista, professor, pesquisador e ex-curador de artemídia no Solomon R. Guggenheim Museum. É formado em física e astrofísica na Harvard. No mundo das artes encontrou seu espaço como conservador da cultura digital. Em 2002 Ippolito passou a fazer parte do Departamento de Novas Mídias da Universidade de Maine, nos Estados Unidos. Nesse mesmo ano, junto com a professora Joline Blais, fundou Still Water, um laboratório dedicado ao estudo e construção de redes criativas. Faz parte do The Variable Media Network, um consorcio internacional de museus que visa a criar estratégias para preservar obras de arte mídia, independente do meio usado. Dentre outros projetos, Ippolito é um dos autores do Variable Media Questionaire, uma base de dados para auxiliar artistas e profissionais do museu na compreensão das necessidades da obra, estabelecendo possíveis problemas a ter em conta na hora de exibir uma obra de artemídia.

Jon Ippolito

No próximo ano, juntamente com Richard Rinehart, Jon Ippolito lança o livro Re-collection: New Media and Social Memory, no qual aborda a preservação das novas mídias. Para eles, o registro histórico de nossa era será irrecuperável se não houver uma drástica mudança nas tecnologias, nas instituições e nas leis que regem a preservação cultural no momento. Convidei-o para uma entrevista especial para o Tecnoartenews. Nela, Ippolito apresenta uma visão atualizada acerca da conservação das obras de artemídia pelos museus, aborda os motivos para se preservar a artemídia, os critérios que definem as obras a serem preservadas, e ainda estabelece uma comparação entre Variable Media Questionnaire e ‘preservação proliferativa’.

Karina de Freitas - Por que conservar a artemídia?

Jon Ippolito - Não importa quantas vezes me façam essa pergunta. Isso sempre me parece peculiar. Estou tendo problemas para pensar em outra forma de expressão cultural que um historiador colocaria neste espaço em branco: “Ei, por que estamos preservando ______________, afinal?”.

Por que você não iria preservar a artemídia? Isso é porque a artemídia não é relevante para o futuro ou é também difícil de preservar ou, de algum modo, é inadequada para a conservação?

É fácil encontrarmos coisas que são preservadas cujo valor histórico ou econômico são menos relevantes. Usuários individuais arquivam dezenas de milhares de e-mails inúteis ao ano. A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos preserva 10 milhões de tweets todos os dia, independente de que o assunto seja Justin Bieber ou Barack Obama.

Pessoalmente, acredito que a artemídia representa uma mudança crítica dada a dramática influência da tecnologia em nossa vida na virada do milênio, e, portanto, é mais importante para o futuro que qualquer outra forma de arte que está acontecendo hoje.

Então isso faz da dificuldade e adequação obstáculos para a conservação.

Claro, é complicado preservar uma animação em Shockwave, porque nós sabemos que o tempo passa para o plug-in, o browser, o sistema operativo e o computador, do qual dependia. Também é infernalmente difícil de preservar uma escultura de Eva Hesse feita de látex derramado sobre tecido de algodão. Mas tentamos de alguma forma. As novas mídias nos oferecem um conjunto de soluções inteligentes para a conservação, tal como a emulação. E, por causa dos protocolos comuns de software e programas subjacentes de muitas obras digitais, as soluções encontradas para um equipamento, muitas vezes, podem ser aplicadas a outros.

Quando não seria apropriado preservar uma obra de arte? Talvez se isso trouxesse algum prejuízo à obra. Especialistas em ética médica questionam se preservar as últimas cepas remanescentes de vírus da varíola. Poderíamos perguntar se é ético preservar o vírus do computador. Enquanto alguns artistas já experimentaram algo parecido ao vírus no obra de arte, como Eva e Franco Mattes e Jaromil, seus trechos de código são quase tão ameaçadores quanto um sabre de luz de brinquedo – mais exibição do que alegria pela felicidade alheia. Essas experiências certamente teriam mais valor para historiadores do que para terroristas.

Talvez um melhor critério para a adequação é verificar se a arte tem a intenção de ser preservada ou se está destinada a ser efêmera. A única forma de saber se um trabalho teve uma data de expiração é realizando entrevista com o artista e demais associados ao projeto artístico. Ainda poderia existir uma boa razão para preservar nosso trabalho que tende ao efêmero, mas se há benefícios para entrevistar o artista de alguma forma, então por que não fazê-lo? É por isso que eu desenvolvi o Variable Media Questionnaire.

Karina de Freitas - Por muitas vezes, questionou-se o museu como uma entidade institucional não adaptada a certas práticas artísticas de artemídia. Ainda que lentamente, os museus tem se dado conta da importância sociocultural de colecionar esses tipos de obras. Fala-se sobre possíveis limitações que os artistas poderiam sofrer ao dever adequar seu processo de criação aos critérios de inclusão nas coleções dos museus. Muitos artistas acreditam que institucionalizar a artemídia poderia significar submetê-la ao risco de não ser mais livre e facilmente acessível. Como você vê essa questão. Como as instituições tem lidado com essas “contradições”? E que papel jogam para escrever a história da artemídia, bem como a formação de um valor de mercado para essas práticas artísticas?

Gravilux, Snibble

Jon Ippolito – Você está certa. Ao tradicional foto dos museus na exclusividade como um termômetro de valor os torna um complicado parceiro de dança dos midiartistas, muitos dos quais estão atentos a maximizar a exposição e a participação. Dito isso, se museus e criadores podem se adaptar a serem “ambos/e” parte da dinâmica da mídia digital, eles podem ter sua fatia do bolo. Para seu trabalho net.flag, encomendado pelo Guggenheim em 2002, Mark Napier escreveu em seu contrato de aquisição o direito de hospedar o projeto em próprio domínio Web caso o museu não pudesse mantê-lo vivo no futuro em Guggenheim.org por razoes técnicas ou econômicas.

Um exemplo de artista que foi mais além no mercado das artes é Scott Snibble quem produziu sofisticadas experiências interativas para as galerias do mundo a finais da década de 1990 e início de 2000. Mesmo interessantes, essas instalações eram caras e complexas de serem produzidas, assim elas apareceram em um par de dezenas de espaços durante a década. Certa vez, Snibble olhou para fora do cubo branco e começou a adaptar versões de suas obras para o iPad, e sua audiência cresceu de centenas de visitantes para centenas de milhares de usuários. Em um dado momento, seu trabalho Gravilux era a app gratuita número um na App Store da Apple e foi baixada 500.000 vezes.

Os museus podem obter esse enorme alcance de audiência, abrindo suas páginas web para modelos mais amplos de distribuição e acesso. Ou eles podem colecionar o código fonte agora e, 20 anos mais tarde, quando as populares plataformas de hoje forem extintas, recuperarão seu papel como porta-estandartes culturais, trabalhando com o artista para renovar suas obras. Na verdade, acredito que no futuro os museus serão menos conhecidos como armazéns que apresentam obras e mais como laboratórios para recriá-las.

Karina de Freitas – Estamos na era das mídias digitais, a obsolescência tecnológica se dá a uma velocidade sem precedentes. Em um tempo em que se criam tantas obras de arte (apenas no Artbase de Rhizome há mais de 2.500 obras de net.art, e dado também o custo do processo de conservação da artemídia, quais os critérios que definem, atualmente, que obras são mais relevantes para a conservação? Afinal, todas as obras de artemídia deveriam ser conservadas?

Jon Ippolito – Pensadores como Kevin Kelly não acreditam em sobrecarga de informação. Eles acham que nós podemos armazenar tudo e simplesmente desenvolver algoritmos cada vez mais eficientes para extrair o sentido da desordem. A maioria das obras de artemídia, no entanto, tem dependências muito complexas de hardware e software especial para que seja viável.

Isso não significa que não deveríamos colocar toda a cultura digital num gelo para futura inspeção. Dada a dificuldade de recriação, no entanto, isso significa que temos que escolher nossas batalhas. Os conservadores deveriam se centrar em escrever um emulador que funcione para as plataformas mais populares. Eles deveriam recriar uma instalação somente se o artista, o colecionador, o patrocinador, e o código fonte estão todos juntos e prontos para trabalhar duro para que isso aconteça.

Nós deveríamos também aceitar uma abordagem de triagem: algumas obras serão recriados com grande despesa, enquanto outras, conhecidas apenas através de screencasts de usuários interagindo com eles, outras ainda conhecidas apenas por um título e uma data em um banco de dados em algum lugar.

E ao invés de lutar por direitos autorais, deveríamos deixar quem tem o bom senso para preservar as obras de cultura digital fazê-lo sem disputas sobre quem é o dono da obra. Isso vai dirigido, especialmente, aos milhares de conservadores amadores que arquivam, emulam, e modificam a cultura pop, como jogos de vídeo. Talvez preservar Donkey Kong ou Nude Raider não é a mais alta prioridade para o Instituto Americano para a Conservação, mas se uma comunidade distribuída de fanboys está disposta a trabalhar nisso, maior importância para eles.

Richard Rinehart e eu conversamos longamente sobre preservação crowdsourcing em nosso livro “Re-Collection: New Media and Social Memory” (Re-Coleção: Novas Mídias e Memória Social), a ser lançado em 2013.

Leia os artigos da série: Panorama do Mercado da Arte Digital

Karina de Freitas – Conservar a artemídia é preservar a nossa memória cultural. Essa frase parece um tanto poética se levamos em conta que centenas de obras de artemídia que se perdem no tempo por falta de conservação. Então, que aspectos são relevantes para acelerar esse processo de preservação da arte?

Jon Ippolito – Nosso livro “Re-Collection” termina com doze recomendações para para resgatar do esquecimento a cultura das novas mídias. Isso porque há doze tipos de pessoas diferentes necessárias para ajeitar nosso sistema descomposto. Alguns são suspeitos habitualmente: curadores, conservadores arquivistas, conservadores de registros. Outras são pessoas que podem parecer à margem no processo de preservação, mas que compõem o pando de fundo junto a todos os trabalhadores na preservação – pessoas como advogados, patrocinadores e historiadores. Como nosso livro argumenta, o status quo é um resquício de um tempo em que colecionar significava apenas algo a ser guardado em uma caixa. E nós vamos precisar de todas as atuações para mudar isso.

É por isso que neste setembro vamos lançar um programa de Curadoria Digital online da University of Maine. Enquanto a maioria dos programas estão especializados na formação de bibliotecários, arquivistas ou profissionais de museus, o nosso programa reconhece que as obras digitais estão sendo criadas a todo momento por cidadãos comuns em suas vidas cotidianas – tanto se trabalham em estúdios fotográficos, escritórios do governo ou apenas em um blog Tumblr. E esses cidadãos comuns precisam atuar como curadores e arquivistas de informação deles mesmos e de outras pessoas.

Karina de Freitas – Você usou o conceito “preservação proliferativa” como estratégia para conservar as novas mídias, a qual inclui o Variable Media Questionnaire. Explicou que, no futuro, novos paradigmas evolutivos para a preservação da artemídia poderão surgir. Afirma que a natureza culpada pela deterioração dos equipamentos podem acabar servindo como inspiração para novos paradigmas para a conservação da artemídia. Poderia falar um pouco sobre a relevância do Variable Media Questionaire no processo de formação de um patrimônio cultural de artemídia? Como a natureza poderia contribuir para estabelecer novos padrões de conservação?

Jon Ippolito – Essas são realmente duas questões diferentes. O Variable Media Questionaire solicita opiniões sobre como exatamente um trabalho deve mudar ao longo do tempo (se é que tem que mudar). No início, o questionário era algo controverso entre os mais curadores e artistas mais conservadores, mas esse era um instrumento prático que pode ser usado no dia a dia por pessoas encarregadas da manutenção dos trabalhos criativos. E do que posso dizer, tais questionários – e ainda mais importante, o modelo fluido que eles incorporam – estão surgindo nas políticas de aquisição e conservação em museus.

Enquanto o Variable Media Questionaire assume que as obras devem transitar de uma versão a outra, a fim de sobreviver à obsolescência técnica e cultural, a preservação proliferativa representa um grande salto conceitual que eu não tenho certeza de que todas as instituições estejam prontas para fazê-lo. A migração é como uma “corrida de revezamento”, em que cada versão, uma vez obsoleta, passa o bastão para a próxima versão “autêntica”. A preservação proliferativa, por outro lado, é a fragmentação em variações simultâneas, espalhando-se para fora como um ventilador, em vez de um desdobramento de uma cadeia linear.

Ainda assim, uma versão de preservação proliferativa já tem sido trabalhada nas comunidades com base em colaboração assincrônica. O remix, por exemplo, pode ajudar a manter a cultura viva, ainda que através de uma lente distorcida. O DJ Danger Mouse renovou The Beatles unindo o ritmo da banda com os vocais de Jay. As atualizações de código no kernel do Linux se propagam para as distribuições Ubuntu, Debian e Red Hat. Em um exemplo menos benigno de proliferação cultural, os spammers clonam passagens de figuras literárias como Virgínia Wolff ou jornais como The New York Times em blogs falsos criados para manipular rankings nos motores de busca.

Mas há uma outra história, muito mais antiga e mais difundida de preservação proliferativa. Encontramos isso nas danças, canções e histórias compartilhadas entre povos indígenas. E se voltarmos ainda um pouco mais e abrirmos nossas mentes, vemos a preservação proliferativa no arquivo genético de todos os seres vivos que nos rodeiam.

Nosso livro “Re-Collection” examina as vantagens e desvantagens de tal arquivo vivo, comparando a estratégia agora relativamente aceita de mídia variável com a estratégia muito mais especulativa dos organismos variáveis. Os pesquisadores demonstraram que o DNA é um meio computacional que pode armazenar pentabytes de informações ou calcular soluções para problemas como o puzzle do Caixeiro Viajante (Travelling Salesman). Poderia o wetware ser o meio de preservação do futuro?


* Link para versão original do artigo em inglês: “Interview with Jon Ippolito, curator of media arts

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