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segunda-feira

27

fevereiro 2012

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Videomapping: arquitetura vivida no corpo

Escrito por , Postado em Destacadas

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Apresentações de videomapping transforma a relação entre homem, arte e cidade.

No escuro, a apresentação começa. O som é forte, percussão sintetizada, textura musical digitalizada. Nosso ouvido se abre. As luzes que vêm em sequência são linhas finas e coloridas, imagens abstratas em movimento, fotos, frases, um mapa da América Latina em tamanho descomunal. Aberto, ele não caberia na sala da sua casa nem em três ou quatro salas da sua casa. Tudo piscando e se movendo em compasso com a música. Nossa mente trabalha reconhecendo aquelas figuras enquanto a boca entreaberta mostra quanto cada pessoa se surpreende com o que vê e ouve. E o mais interessante de tudo é que, sem ninguém nos tocar, nossa pele se arrepia inteira, feito pele de galinha.

Insuspeitável é o que desencadeia toda essa reação física: uma apresentação de videomapping (ou videomapeamento), técnica de projeção audiovisual em grandes estruturas, como edifícios e monumentos, em que as imagens, interagindo com a arquitetura onde são exibidas, ganham volume e contam uma história ao público. No último dia 17 de dezembro, a fachada que serviu de suporte à projeção foi a alva estrutura externa do Memorial da América Latina, em São Paulo, como parte do Passport VJ University(passportvjuniversity.com.br), série de seis dias de workshop sobre videomapping. Com organização e curadoria dos VJs Spetto e Pedro Zaz, ambos do coletivo internacional United VJs (unitedvjs.org), o Passport reuniu centenas de pessoas durante uma noite quente diante do conjunto projetado por Oscar Niemeyer, inaugurado em 1989. Naquela festa, o Memorial serviu de palco para tecnologias avançadas de videoprojeção, usadas com a finalidade de integrar a arte e as pessoas à arquitetura e ao espaço público – uma das principais razões de ser do videomapping.

O pulo do gato

Embora as primeiras experiências com videomapeamento tenham sido feitas no mundo há pouco mais de cinco anos, o conceito que embasa essa arte precede sua execução em mais de um século. “Os futuristas, no início do século XX, já diziam que a fachada devia ser midiática, que o edifício tinha de se comunicar com o entorno”, afirma Spetto.

A luz é a matéria-prima do videomapping. Transformada por técnicas de ilusão de óptica e anamorfose (deformação reversível da imagem), por exemplo, ela ajuda a romper padrões visuais aos quais o olho humano está acostumado há séculos, afirma Omar Calzada, do Telenoika (telenoika.net), um dos mais expressivos grupos de criação audiovisual da Espanha. E é justamente essa ruptura que surpreende os sentidos de quem vê uma apresentação de videomapeamento.

O “pulo do gato” do videomapping, que intensificou sua comunicação com o entorno, foi a projeção volumétrica em contraposição à bidimensional. Isso foi possível quando os artistas descobriram – de forma casual e intuitiva – que era viável não só projetar imagens em várias telas e em espaços bem maiores do que elas, mas que também era possível “dobrar” essas imagens, fazendo, assim, com que todos os detalhes das fachadas – curvas, janelas, portas, torres e o que mais existir – pudessem ser usados como suportes em três dimensões para as projeções. Não se trata de projetar uma imagem bidimensional em uma parede plana, mas, sim, de desenhá-la com luz em toda a estrutura cúbica de uma edificação. A comunicação com o entorno passou a ser, então, mais complexa (e completa) e o impacto causado nos espectadores tornou-se mais vivo.

“Sem dúvida, a projeção mapeada tem levado essa arte para um patamar nunca antes imaginado. A evolução técnica é muito grande, tanto por parte dos equipamentos quanto dos softwares de criação. Hoje, o que define o limite de cada projeto é seu budget e seu tempo de criação. Simplesmente não há mais limites técnicos ou de concepção. Conseguimos fazer de tudo, até o Cristo Redentor fechar os braços”, afirma Dudão Melo, diretor do departamento de comunicação e projetos da produtora Visualfarm, responsável pelo projeto artístico Vídeo Guerrilha (videoguerrilha.com.br), que em novembro de 2011 “ocupou” fachadas de edifícios e casas na Rua Augusta, em São Paulo.

Nessa edição, a segunda realizada, mais de uma centena de criadores fez projeções monumentais utilizando técnicas de videomapeamento. “As pessoas não olham mais a paisagem urbana, estão cegas e presas à sua rotina, em que olhar para cima ou para o lado significa perder tempo. Hoje, o êxodo urbano central é uma realidade na maioria das grandes cidades do Brasil e do mundo. A Rua Augusta tem sido um bom exemplo da importância do entretenimento para a recuperação daquela região”, diz Melo.

O atual momento da videoprojeção ratifica, segundo Spetto, um postulado do arquiteto italiano Bruno Zevi em seu livro Saber Ver a Arquitetura (WMF, 2009): a arquitetura é algo que se vivencia. “Por mais que você tenha uma planta, uma foto, um vídeo, um memorial descritivo, nada disso suplanta a experiência de viver a arquitetura, que é você passar por um portal e sentir uma brisa no rosto, ver a luz do sol se revelar por trás daquilo, ou chegar na frente de uma fachada, olhar as portas e janelas e dizer: ‘nossa, parece a cara de um cachorro, de um homem’”, exemplifica o VJ. Spetto diz que usa os detalhes dos edifícios onde projeta como elementos da dramaticidade. Essa ação artística não se resume, para ele, em um espetáculo de luzes, já que possui uma narrativa passível de ser apreendida e sentida pelo espectador, que dá sua própria interpretação ao que vê.

Novo, novíssimo; antigo, antiquíssimo

O processo de criação do videomapping envolve, sem dúvida, uma refinada tecnologia de softwares para modelar, editar e mixar as imagens, e de hardwares robustos, capazes de rodar esses programas – em geral, PCs com sistema Macintosh, máquinas híbridas montadas pelos próprios videomapers. Há também os projetores, suas lentes e a técnica necessária para operá-los. Tudo isso é “novo, novíssimo”, como gosta de dizer Spetto. Mas também há a porção antiga, antiquíssima do videomapping. Para dobrar a imagem na fachada tridimensional de um edifício usando softwares modernos em hardwares tunados, é preciso ter intimidade com a trigonometria. Sem um estudo matemático da fachada que servirá de suporte à projeção as contas não fecham e o videomapping simplesmente não pode existir. A arte, com sua virtude integradora, consegue unir extremos de forma orgânica.

Spetto estima que, em todo o mundo, haja cerca de 20 grupos que trabalham seriamente com essa nova arte. No Brasil, o videomapping segue evoluindo, mas encontra barreiras técnicas por falta de formação profissional e de equipamentos, que, de acordo com o VJ, são itens caros e difíceis de ser importados. “Mas com o pouco equipamento que há já dá pra fazer bastante coisa”, diz.

O videomapping sustenta a reocupação do espaço público pelas pessoas, desde a fachada dos edifícios até o ambiente onde os espectadores se reúnem para ver as projeções. Naquela noite de sábado no Memorial da América Latina, as centenas de espectadores sentados no chão da parte exterior do edifício – algumas até deitadas –, conversando, bebendo e dançando, eram a imagem mais próxima de um ideal de cidade participativa e humana, que se preocupa menos em proibir as coisas e mais em criar condições para que as pessoas desfrutem dela. “O videomapping vem na esteira de todas as manifestações urbanas de arte. É uma ânsia da cultura e da arte atual de transformar a cidade em que se vive numa coisa mais humana, acessível e lúdica. Todos querem transcender”, diz Spetto.

No caso do Vídeo Guerrilha a história por trás da fachada também foi protagonista nas projeções. “Fizemos dezenas de visitas técnicas à Rua Augusta até chegarmos a um formato final para cada edifício. Mas o mais interessante é você pensar que, em cada prédio com seus moradores, existe uma história que pode ser contada. E essa é uma das missões do evento: encontrar a poesia visual que está perdida e projetá-la, deixando as cidades e os moradores mais bonitos e orgulhosos”, explica Melo.

Via @Continuum/Itaú Cultural, Texto: ©Sabrina Duran, Foto: ©Garapa

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