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segunda-feira

18

julho 2011

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COMENTÁRIOS

Conversa com o artista Ricardo Iglesias García

Escrito por , Postado em Estéticas Tecnológicas

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Ricardo Iglesias García trabalha com net.art e arte robótica. Interessa-se por arte e tecnologia, robótica, desenvolvimento de sistemas, câmaras de vigilância, programação. Nesta semana estará no Brasil para participar do FILE PAI 2011 e de um bate-papo no CCE_SP. Antes de embarcar para o Brasil, Ricardo Iglesias conversou com o TecnoArteNews, apresentando as principais inquietações de seu trabalho artístico e antecipou como será sua participação nos dois eventos.

TecnoArteNews: Quais são as principais temáticas que integram sua reflexão artística?

Ricardo Iglesias García: Meu trabalho se centra nos conceitos de comunicação entendida como uma atividade humana fundamental, na qual os indivíduos se relacionam e formam relações sociais e na qual é necessário resgatar a noção dialógica e a reconsideração do receptor ou destinatário. Para mim, a comunicação se apresenta como um processo no qual, conforme afirma Kaplún, “dois ou mais seres ou comunidades humanas intercambiam e compartilham experiências, conhecimentos e sentimento, ainda que seja a distância e através de meios artificiais” (KAPLÚN, Mario. Una pedagogía de la comunicación. Madrid: Ediciones de la Torre, 1998). Mas, para que exista uma comunicação real, é necessária uma “igualdade efetiva de oportunidade para assumir o propósito do diálogo” (HABERMAS, J. Teoría de la Acción Comunicativa. Madrid, Taurus, 1981), e, portanto, um acesso direto e de igualdade de condições com os meios e a tecnologia. Interesso-me também pela interação na relação entre homens e máquinas que, até então era sustentada no uso, no cuidado e na administração da ação da máquina, passa, a partir de um simples manejo, a desenvolver uma relação ser humano-máquina baseada em uma interação interna e mútua. Esta proximidade implica a participação ativa e direta dos sujeitos nos trabalhos artísticos, através de sensores, alta voz, sombras, presenças, links e cliques. Os elementos usados são, majoritariamente, objetos reativos, como máquinas e robôs, peças de net.art, conexões desde diferentes canais de comunicação e tecnologia, imagens cambiantes, vídeos e instalações.

TecnoArteNews: Poderia nos dizer de que maneira você se serve da robótica em seus trabalhos?

Ricardo Iglesias García: Durante um tempo meu trabalho se centrou na net.art., mas a interação se limitava, normalmente, a um formato individualizado dentro de uma tela de computador. Com a robótica e outro tipo de instalações com sensores, posso trabalhar na totalidade do espaço físico, sem abandonar nunca o espaço virtual e propor diferentes níveis de interatividade por parte de coletivos ou indivíduos.

TecnoArteNews: Surveillance Cameras they are alive!! será apresentado no FILE PAI 2011. Em que consiste este projeto?

Ricardo Iglesias García: A contínua proliferação de câmeras de vigilância nos introduz em uma paranoia de insegurança mundial contínua, o que podemos denominar “sociedade da vigilância”. O projeto propõe a criação de um conjunto de câmeras robóticas “vivas” que persigam a gente. As câmeras gravam os visitantes, realizando diferentes projeções no lugar da instalação e pela internet.

TecnoArteNews: Que questões são propostas em Surveillance Cameras they are alive!!?

Ricardo Iglesias García: O projeto propõe, principalmente, uma crítica ao aumento dos sistemas de controle automáticos que, conforme proposto na instalação prévia, a obtenção de informação por parte destes sistemas nunca é inocente, nem objetiva. Sempre existe um elemento externo (econômico, político, jurídico…) que a traduz, conduz e/ou manipula.

Em 13 de outubro de 2007 os meios de comunicação publicaram a intenção da ministra francesa de triplicar em dois anos o número de câmeras de vigilância passando a cerca de 6.500 unidades, ampliar a conexão dos centros de controle policiais para 230 cidades mais importantes e utilizar pequenos aviões tripulados dotados com câmeras para “controlar” os subúrbios de Paris. Mas não só na França são produzidas câmeras e introduzidas nos espaços urbanos. Em Nova Iorque há a proposta de uma iniciativa de 90 milhões de dólares para realizar seu Ring of Steel, imitando o modelo de Londres: um circuito de vigilância 24h, composto por 65.000 unidades na cidade e mais de 4,2 milhões em todo o país. Por sua vez, a cidade de Barcelona declarou a necessidade de criar uma rede de câmeras para “espaços de conflito”. Como indicado na notícia Miradas digitales por todo el mundo (El País, 14/10/2007), o problema é que existe uma sutil linha divisória entre a busca pela máxima segurança e o direito à intimidade. Além disso, as denominadas “políticas do medo” e “ideologia da insegurança” se converteram em um mantra contínuo de um sistema de controle totalitário para o qual, como bem assinalou a ministra francesa, a opinião pública está preparada. Muitas dessas câmeras de vigilância IP podem ser vistas pela internet, bastando uma simples busca no Google. Introduzindo “inurl:/view/shtml” é possível acessar 168 mil câmeras privadas e públicas. Somamos ao controle institucional, a morbidez voyeurista. Vivemos cada vez mais em uma paranoia incontrolável e universal em que centenas de milhares de câmeras vigiam um Big Brother real, em um mundo de paredes de cristal.

TecnoArteNews: No FILE PAI 2011, você ministrará a palestra “Arte, robôs e câmeras de vigilância”. O que está preparando para esta apresentação?

Ricardo Iglesias García: Esta é uma conferência dividida em quatro grandes blocos. O primeiro corresponde aos antecedentes técnico/literários do conceito de autômata. O segundo se centra na definição de robô e a influência da cibernética. No terceiro, introduzido pelo escrito “Arte robótica: um manifesto” (KAC, Eduardo e ANTUNEZ ROCA, Marcel.li. In: Leonardo Electronic Almanac, Vol. 5, N. 5, Maio 1997), apresento uma série de exemplos paradigmáticos de aplicações robóticas para a criação artística, levando em consideração os conceitos de telepresença. telecomunidade e telecontrole. No último bloco realizo uma rápida apresentação da instalação Surveillance Cameras they are alive!!.

TecnoArteNews: Também estará em um bate-papo no CCE_SP junto a Miguel Ángel de Heras. Pode adiantar um pouco como será esta participação?

Ricardo Iglesias García: Neste caso, faremos a conferência “Robotics made in Hangar: Surveillance Cameras: they are alive!! y Hormigas gigantes“. Apresentaremos o centro de produção e investigação artística Hangar, cujo objetivo é dar apoio a criadores e artistas e oferecer serviços que se adaptem às necessidades de produção que surgem no mundo da criação. A estrutura do centro, seu funcionamento, seu MediaLab e a forma de trabalhar em colaboração com os artistas. E apresentaremos os últimos trabalhos sobre robótica realizados no centro: Surveillance Cameras: they are alive!!, um conjunto de robôs espias que perseguem as pessoas, e Hormigas Gigantes, insetos modificados eletro-mecanicamente, que parecem ter escapado de um filme de ficção científica. Será demonstrado ao público um dos robôs para explicar todo o trabalho de desenvolvimento: mecânica, eletrônica, programação…

TecnoArteNews: Está trabalhando em algum novo projeto?

Ricardo Iglesias García: Sim, sempre estou trabalhando em algo, mas agora o projeto principal é minha tese de doutorado: A robótica como expressão artística. Evolução histórica e desenvolvimento de máquinas autômatas sob o prisma da estética.

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