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quinta-feira

31

maio 2012

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Instalação de Giancarlo Neri vira cenário para fotos de casamento e reacende debate sobre autoria

Escrito por , Postado em Destacadas, Estéticas Tecnológicas

casamento by Paulo Heredia - Fev|2012

Máximo Silêncio em Paris”, do artista italiano Giancarlo Neri, iluminou a Praça Paris, no centro do Rio de Janeiro, entre os dias 27 de janeiro e 5 de fevereiro de 2012. A obra dispõe de cerca de 9 mil lâmpadas de 25 cm cada, que mudam de intensidade e cor. Programadas em ciclo, as lâmpadas começam a brilhar sincronizadas, pulsando as mesmas cores: azul, vermelho, amarelo, verde.  Depois de cinco minutos, vão ficando descontinuadas, resultando em um efeito multicolorido.

A instalação chamou a atenção de muitas pessoas, fascinadas com a intervenção no espaço público. Chamou atenção também do fotógrafo Paulo Herédia que transformou o espaço da instalação em cenário para belas fotos do casamento de Mariana e Eduardo. Até aí a ideia pode parecer original, pois atribui à arte uma nova funcionalidade, talvez jamais pensada pelo próprio artista.

No entanto, o ato do fotógrafo se torna irônico posto que, ao fazer da obra um pano de fundo para suas fotos e reservar para si todos os direitos de uso das imagens, desconsidera a autoria do projeto artístico. Herédia não só não atribui os créditos da instalação a Neri, como também a usa para fim comercial, descaracterizando, dessa forma, sua natureza de obra de arte.

Tal evento reaquece um antigo debate sobre a que, de fato, se presta a arte. Em conversa on line, sobre o ocorrido, Giancarlo Neri afirmou que “na época em que tudo é ‘artístico’, nada acaba sendo arte”. Mas será que de fato nada acaba sendo arte? Afinal, como controlar as possíveis interações do público com um projeto de arte desse porte? Quais os limites de uso da arte? A questão não se centra, de fato, no emprego da instalação como cenário para as fotos do casamento, mas sim na ação do fotógrafo ao atribuir para si o os direitos de uso das imagens. Nesse sentido, a discussão pode ser profunda, porque inquietante e instigante, ao tangenciar uma série de questões como o fazer da arte, a autoria, os direitos de uso da obra, a tênue fronteira entre apropriação e plágio, a originalidade, os direitos de imagem e o valor mercadológico da obra.

Na arte contemporânea, aliás, a apropriação não é um procedimento novo na produção e criação artística. No entanto, o processo de apropriação deve pressupor uma reintegração ou ressignificação do objeto artístico utilizado, uma possibilidade de transitar entre o passado e o presente. A esse aspecto, o midiartista Eduardo Kac, contemporaneamente, define como um princípio de recepção generativa, dada a capacidade de uma obra de servir como motivação para dar origem a outras que adquirem unicidade em sua constituição. Nesse caso, tudo está em prol do fazer artístico. O artista deixa evidente a apropriação e a influência do outro em seu trabalho, estabelecendo um diálogo direta ou indiretamente com o objeto artístico outro.

Definitivamente, não seria o caso das fotos de Paulo Herédia.

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