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sábado

12

janeiro 2013

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Postais contra despejos – recordações que queríamos esquecer

Escrito por , Postado em Arte Contemporânea, Arte e Cultura, Destacadas, Estéticas Tecnológicas, Notícias

Postais produzidos pela oficina TAF

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Arte socialmente engajada, arte como projeto, estética relacional, dentre outros. Este são muitos os nomes dados para ações artísticas voltadas para trocas sociais, o coletivismo e o ativismo político. Todas as ações deste tipo de artivismo (mistura de arte com ativismo) visam realizar transformações possíveis e significantes dentro de uma sociedade baseada pelas redes de comunicação.

Ao contrário de como ocorria na antiga União Soviética com os teatros coletivos e em alguns movimentos sessentistas de arte, as ações que misturam arte, política e social que mais funcionam hoje em dia são as de menor escala e que trabalham em contextos específicos.  Isso ocorre porque atualmente a estrutura social promovida pela sociedade da Informação é composta por formações sociais descentralizadas e muitas vezes critica e politicamente descompromissadas, onde é mais desafiador estabelecer grandes coletivos politicamente engajados.

Isso quer dizer que na sociedade baseada pelas redes de informação e pelas redes móveis as ações que mais produzem efetividade  são aquelas que trabalham com pessoas que vivem sobre a mesma realidade e compartem experiências em comum. Este é o caso do mais recente projeto do coletivo espanhol Enmedio [i]chamado  “Nós não somos números”, realizada por oficina de produção fotográfica chamada  TAF!  (em espanhol, Taller de Acción Fotográfica) pertencente ao mesmo coletivo artístico.

A proposta que foi posta em ação na Espanha em 1o de janeiro de 2013, era de caráter artivista e documental e já foi exposta em dezembro de 2012 na cidade de Nova Iorque, EUA, [ii].  O trabalho artístico consiste na produção e distribuição de cartazes e cartões postais. Este material foi confeccionado  com fotos e depoimentos produzidos por pessoas que vivem na Espanha e que estão em risco de serem despejadas de suas casas por não pagarem suas hipotecas[iii].  Dessa maneira, o objetivo da ação do Enmedio era que os postais produzidos fossem preenchidos com recados de protesto que iam ser enviados aos bancos que pretendem despejar os endividados da hipoteca. Juntamente com os postais outros cartazes com as mesmas fotos iam ser pregadas nas portas das agencias bancarias.

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Ao analisarmos a ação que se realizou juntamente com um protesto da Plataforma dos Afetados pelas Hipotecas (PAH) podemos observar claramente como funcionam as ações de arte ativismo nos dias de hoje. Realizados  em frente a uma das principais agencias bancarias de Barcelona, que é responsável por muitas hipotecas espanholas, a proposta do Enmedio recebeu bastante aceitação e participação das pessoas que estavam presentes. Isso se comprovou quando em somente meia hora o coletivo já possuía mais de cem cartões preenchidos principalmente direcionados ao banco Caixa Catalunya, que é o que mais despeja pessoas em Barcelona.

Diante deste exemplo podemos observar que o fato da proposta estar agindo diretamente no contexto das pessoas afetadas faz com que o desejo de participação e protesto sejam potencializados. Estar presente num momento fervoroso e passional como o das manifestações políticas fazem com quem o espírito coletivo e crítico aumente incrementando a participação neste tipo de trabalho artístico. Talvez, o retorno participativo das pessoas em Nova Iorque não seja tão efetivo ou dotado de tanta paixão e revolta como no caso de ontem, em Barcelona.

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Os americanos podem até escrevem recados aos bancos ou se conscientizarem a respeito da situação econômica espanhola, porém não estão inseridos num contexto similar ao da Espanha ,no qual as pessoas sentem na pele os efeitos de um despejo. Além do mais, o alcance da proposta quando instalada nos Estados Unidos pode ser menor já que se aloja em uma exposição de arte que muitas vezes são frequentadas por públicos mais restritos, o que subtrai o alcance de um número maior de pessoas

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Sendo assim, através desse exemplo fica mais fácil de analisar de que maneira um projeto de caráter artivista pode ter mais êxito e cumprir com seus objetivos iniciais.  No caso do “Nós não somos números” o contexto reivindicativo da Plataforma dos Afetados pela Hipoteca(PAH), foi fundamental para o êxito da proposta porque foi através  da participação  da maioria dos protestantes que ao projeto conseguiu cumprir seus objetivos ativista, coletivo e participativo.

Em relação ao êxito da ação artístitca e de sua repercursão na mídia[iv], diz um dos criadores da proposta “¿Qué más podemos decir? Nos encanta que los planes salgan bien!”

Pois, felicitações ao Enmedio por mais uma proposta bem sucedida!

* Fotos de divulgação produzidas por fotomovimento.org


[iii] Com a crise europeia o número de pessoas que devem mensalidades de suas hipotecas cresceu de maneira significativa. Esse aumento de endividamentos   faz necessário uma mudança nos parâmetros que regem a lei das hipotecas que já desalojou mais de 400.000 pessoas desde o início da crise s em 2008. (jornal “El Publico”, 16/07/2012)

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