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quinta-feira

22

setembro 2011

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A 8ª Bienal do Mercosul leva obras a nove pontos de Porto Alegre

Escrito por , Postado em Bienal, Eventos

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Num mundo imagético e midiático em que a topologia tende a ser anulada pela visão planificada dos mapas e satélites, onde a aparência visível é explorada até a exaustão, a ponto de quase anestesiar os olhos, experiências artísticas que ultrapassam o âmbito da pura visibilidade podem ser ainda mais significativas. Em Cidade Não Vista, o contato com a urbe a partir do tato, dos odores, dos sons, das palavras e de mínimas intervenções, é uma estratégia de ativação de territórios de Porto Alegre. Explorar outros sentidos é um modo de interferir na relação cotidiana que o pedestre tem com o espaço público. Ao atingir o cidadão desprevenido, o trabalho de arte pode colaborar na abertura para uma relação não usual com o território da cidade.

A partir de um processo de arqueologia urbana, foram identificados nove lugares do centro da capital gaúcha que despertam interesse arquitetônico, histórico, sociológico, ou, simplesmente, curiosidade. São eles: o Aeromóvel, o Observatório, o Viaduto Otávio Rocha, a Chaminé da Usina do Gasômetro, o Jardim do Palácio Piratini, a Escadaria da Rua João Manoel, a cúpula da Casa de Cultura Mario Quintana (um espaço cultural público), a Garagem dos Livros (um espaço literário) e o prédio da Antiga Prefeitura. A ênfase foi dada a locais que muitas vezes não são percebidos pela população, seja pelo automatismo que costuma caracterizar a experiência na cidade, pela dificuldade de acesso ou por estarem fora do imaginário coletivo.

A ideia é atrair o público para espaços que não são usualmente considerados interessantes (a Escadaria ou a Garagem dos Livros), ou para importantes ícones da cidade, mas que estão inacessíveis (o interior da Chaminé, o Jardim do Palácio Piratini). Ruínas urbanas que surgem antes mesmo de os projetos inaugurarem (o Aeromóvel), estátuas com valor histórico, mas pouco notadas (monumento público da cidade), assim como construções com valor arquitetônico e cultural (Casa de Cultura Mario Quintana, Viaduto Otávio Rocha, Observatório e Antiga Prefeitura) serão valorizados a partir de uma aproximação não tradicional. Não se trata simplesmente da instalação de objetos esculturais, de justapor obras já prontas aos locais, mas sim de abordar territórios da cidade a partir de estratégias que valorizem elementos já existentes. Para isso, nove trabalhos realizados por artistas de diferentes nacionalidades foram elaborados especialmente para os referidos espaços. Todas as obras destacam o lugar e privilegiam a experiência sensorial. (Texto de Cauê Alves, curador adjunto)

Confira os artistas e locais onde estão os trabalhos:

- Elida Tessler – Garagem dos Livros

A temporalidade é algo que está no interior da prática de Elida Tessler. Materiais como palha de aço enferrujada e metais deteriorados revelam o processo de desgaste dos objetos. A transparência de frascos de vidro, presentes ainda hoje em sua obra, dá um caráter silencioso aos seus trabalhos. Em sua poética, metaforicamente, coadores de café retém memórias e lembranças, filtrando a espessura das palavras. A artista gravou uma série de palavras em chaves, evocando grandes obras da literatura mundial e abrindo cadeias associativas. Na última década, deu ênfase ao uso da palavra e suas relações com seus diversos sentidos.

Desenvolve desde 2004 a pesquisa Você me dá a sua palavra?, que já contou com a colaboração de centenas de participantes que escrevem uma palavra num prendedor de roupas. Pendurados num varal, o tamanho dessa obra em processo já atingiu dezenas de metros. Um de seus trabalhos mais conhecidos chama-se Doador e foi realizado em colaboração com dezenas de amigos que enviaram, atendendo a uma proposição da artista, objetos cujos nomes terminassem com o sufixo “dor”, tais como aparador, secador, regador, que foram afixados nas paredes de um corredor. A experiência com o trabalho nos leva ao questionamento sobre a arbitrariedade do nome de muitos objetos.

- Marlon de Azambuja – Viaduto Otávio Rocha

Marlon de Azambuja tem um trabalho que parte de uma profunda sensibilidade do espaço. Suas intervenções se relacionam com a paisagem arquitetônica, seja reinventando volumes, seja tecendo comentários bem-humorados sobre a cidade. O mobiliário urbano é geralmente interrogado por seu traçado de fitas adesivas. De modo sensorial, o artista redesenha espaços tridimensionais e proporciona relações mais sensuais entre o público e a paisagem. Seu método de trabalho envolve uma percepção acuada do lugar e, por isso, o artista consegue como poucos tirar proveito de elementos já existentes, tais como coluna, corrimão e bancos. Em muitos casos, estabelece um diálogo íntimo entre suas intervenções e pequenas modificações na luminosidade. Isso é o suficiente para que suas arquiteturas efêmeras façam o espaço vibrar.

Construindo e desconstruindo elementos urbanos, o artista desenvolveu uma série que explora o potencial escultórico da cidade. Ele nos faz refletir sobre a funcionalidade dos objetos e nos faz estabelecer outra relação com as formas presentes em nossa vida cotidiana, invertendo o modo corriqueiro com que nos relacionamos com a cidade. Recentemente, produziu uma série de fotografias em que desconstrói a aparência de imponentes edifícios e reconfigura suas fachadas. Sua obra modifica os códigos habituais a partir de mínimas interferências, muitas vezes revelando como certos elementos arquitetônicos e urbanos agem sobre nossos movimentos.

- Oswaldo Maciá – Chaminé da Usina do Gasômetro

O trabalho de Oswaldo Maciá põe em xeque nossas certezas. Ele nos proporciona um modo de reconhecimento do mundo em que recoloca a percepção no centro. Em vez das experiências estarem subordinadas ao conhecimento intelectual e às convenções, é o contato direto pelos sentidos que possui a primazia. Ele retira do olho o privilégio do conhecimento e explora sonoridades e olfatos. A partir de imagens, sonse cheiros, sua obra rompe com o objetivismo e valoriza as ambiguidades da percepção. Trabalhando com a colaboração de especialistas em perfume, ele reinterpretou temas clássicos como a pintura Calúnia, do artista grego Apeles, retomada por Botticelli. Também realizou uma sinfonia de aromas humanos a partir de uma seleção de cheiros de etnias de todo o mundo.

O artista se interessa bastante pelas relações entre olfato, espacialidade e memória. Explora fragrâncias naturais e artificiais e nos faz refletir sobre contradições entre informações olfativas e visuais. Recentemente, pesquisou a noção de equilíbrio a partir dos sons ultrassônicos emitidos por morcegos. São os ecos que ressoam no ambiente e que retornam aos ouvidos desses animais que permitem que eles se guiem e se desloquem pela escuridão. Ao longo de seu percurso, Maciá construiu vídeos, instalações e esculturas sonoras e olfativas que nos fazem perceber o ambiente com mais acuidade e atenção.

- Paulo Vivacqua – Observatório

Paulo Vivacqua trabalha essencialmente com o som, mas na sua qualidade física, como onda que faz vibrar corpos. Um som que tende a se transmutar em contato sensorial direto, que ressoa no público e no espaço. Seu trabalho proporciona uma relação renovada com a arquitetura. Fios e alto-falantes de diferentes tamanhos não são escamoteados; ao contrário, formam desenhos orgânicos, objetos, além de funcionarem como fonte visível de ruídos. O artista trabalha também em instalações a partir de diversos materiais como areia, vidro, espelho, luz e projeções em vídeo. Seus sons produzem estruturas musicais que ativam a imaginação e geram espaços profundos. Em um de seus projetos, ele construiu uma sinfonia de múltiplas vozes sobre o antigo bairro carioca de São Cristovão.

A partir da combinação de depoimentos sobre várias épocas, colhidos de seus frequentadores, ele formou um mosaico sonoro. O artista realizou trabalhos em que ocupou territórios com poucos elementos visuais e sonoros, produzindo atmosferas distintas a partir da combinação de sonoridades e luzes. Em seu percurso, a partir de diversos canais de áudio, provoca uma fusão em que já não se sabe se os sons são próprios do ambiente ou projeções da memória do lugar. O artista borra as fronteiras entre música experimental e arte contemporânea, assim como acaba com qualquer oposição entre som e espaço.

- Pedro Palhares – Aeromóvel

Pedro Palhares tem um trabalho multidisciplinar e experimental. Possui pesquisas em fotografia, performance, música, vídeo e cinema. Realizou filmes de curta metragem e desenvolve constantemente investigação sobre processos fotográficos, sobre a construção da imagem e da memória. Quadraturas (série paisagem sonora) é um projeto que vem se desenvolvendo e se ampliando desde 2004. Trata-se de uma espécie de rede que conecta as pessoas a partir do som. Feita com espessos canos de PVC, de comprimentos variáveis e suspensos por cabos de aço, essa rede transforma e amplifica os sons do ambiente em zumbidos contínuos, parecidos com aqueles que ouvimos ao colocar uma concha no ouvido.

Construiu também um corredor sonoro feito por canos suspensos e alinhados em uma sequência determinada, formando uma frase musical. O ritmo da música se dá de acordo com a velocidade com que o ouvinte atravessa o corredor polifônico. A música só pode ser escutada se o ouvinte se movimentar. Em sua obra, sons quase imperceptíveis presentes no dia a dia e em espaços expositivos são amplificados pelos tubos. Notas de sonoridades são produzidas tendo como matéria-prima a poluição sonora. Com a justaposição de sons de diferentes texturas presentes na cidade, ele produz acordes surpreendentes. De tão recorrentes, esquecemos que certos ruídos interferem em nosso corpo e tendemos a abstraí-los. Seu trabalho nos faz refletir sobre a presença constante de sons em nosso entorno que, em geral, passam despercebidos.

- Sissel Tolaas – Jardim do Palácio Piratini

Mediante ações que envolvem pessoas que recebem salário mínimo, outras intervenções públicas e escultóricas, Santiago Sierra expõe o mecanismo capitalista do trabalho remunerado, desmascarando as estruturas de poder que mantêm invisíveis os trabalhadores dentro do sistema capitalista – ao mesmo tempo em que manifesta a relação endêmica da arte com esse sistema. Esse é um artista polêmico, que desconfia da noção marxista de classe trabalhadora, capaz de mudar a sociedade por meio da revolução do sistema. Não é a luta de classes o central para ele, mas sim a identidade dos trabalhadores. A relevância de suas obras – que são formalmente sofisticadas e fazem referência à arte dos anos 1960/70 – baseia-se na maneira com que elas traçam novas formas de ver, de tornar visível aquilo que passa despercebido ou que se mantém na sombra. Portanto, a natureza política de sua obra não está unicamente na crítica aos mecanismos de dominação, mas, sim, no seu potencial sensorial de criar um impacto no político; de acionar ingerências no cotidiano e, por extensão, na lógica do consenso político.

Hinos de Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, reproduzidos ao mesmo tempo e continuamente (2007) é uma peça sonora que converte em um concerto cacofônico os hinos desses países, todos pertencentes ao Mercosul. Essa obra foi apresentada pela primeira vez no Cabildo de Montevidéu, Uruguai, cidade sede do tratado de livre comércio da América do Sul.

- Tatzu Nishi – Antiga Prefeitura

Apesar de elaborar diferentes projetos de intervenções urbanas, Tatzu Nishi é mundialmente conhecido por criar novos ambientes e produzir contextos em que a relação que os cidadãos estabelecem com monumentos históricos se aproxima do campo privado. A partir de andaimes e estruturas provisórias de construção, que permitem que o público tenha acesso aos monumentos sob outro ponto de vista, o artista produz salas de estar mobiliadas e quartos de hotel em que fragmentos de monumentos públicos e ícones religiosos se tornam adornos de mesas de centro e enfeites domésticos. De modo bem-humorado, sua obra ressalta pequenos elementos dos monumentos que passam despercebidos no cotidiano, além de atribuir novos sentidos às estátuas. Ao lançar um olhar descontraído e irreverente aos ícones urbanos, sua obra rompe com a formalidade e com o modo distanciado com que essas obras aparecem na cidade.

Ao vermos os monumentos pomposos a partir de um patamar mais igualitário, ou seja, eliminando as bases das estátuas, o público estabelece uma relação informal e menos aurática com o patrimônio histórico. Tatzu Nishi vem produzindo trabalhos em que rearticula mobiliários urbanos, luminárias públicas e experiências com guindastes. Realizou também projetos no interior de instituições museológicas, nas quais criou contextos banais para obras modernas, inserindo, por exemplo, uma cozinha completa ao redor de uma pintura e proporcionando um contato nada usual com a história da arte.

- Valeska Soares / O Grivo – Casa de Cultura Mario Quintana

Valeska Soares trabalha com diferentes suportes – instalações, desenhos, esculturas,  jardins, vídeos – lidando também com sons e odores. Ao longo de sua trajetória, recorreu, entre outros, a materiais como mármore, cera, aço inoxidável e espelhos. Sua obra aborda o vazio, a ausência, afetos e memórias, mas sempre buscando envolver o público. Em geral, a artista estabelece uma relação ilusionista e sensual com os sentidos, como se tentasse manipular e enganar nossa percepção. Elaborou também projetos em que inventou distintos modos de espacialização de textos escolhidos de Ítalo Calvino, de Roland Barthes e de catálogos de instituições de arte.

O Grivo é formado por uma dupla de músicos: Nelson Soares (Belo Horizonte, 1967) e Marcos Moreira (Belo Horizonte, 1967). O grupo já compôs trilhas para cinema, vídeo e dança; e já realizou trabalhos em colaboração com vários artistas, entre eles Cao Guimarães e Valeska Soares. Em geral, seus integrantes constroem engenhocas mecânicas e bem-humoradas que se transformam em instrumentos musicais. Apesar de privilegiarem o som, não há oposição entre a aparência visual e a sonoridade das geringonças. A dupla trabalha com grande diversidade de procedimentos, além de fazer performances e improvisações com equipamentos eletrônicos e acústicos. Interessam-se pelo movimento do som, pela singularidade de certos ruídos e pela potência sonoroespacial das instalações que realizam.

- Vitor Cesar – Escadaria da Rua João Manoel

As noções de público e esfera pública são caras ao trabalho de Vitor Cesar. Muitas vezes apresentados em espaços não artísticos, como as ruas de São Paulo ou Fortaleza, seus projetos quase sempre envolvem uma estratégia de comunicação com o outro e uma problematização do contexto em que se inserem – ou dos discursos que alimentam o imaginário sobre determinado lugar. Cartazes, painéis e letreiros são alguns dos dispositivos utilizados pelo artista em propostas que se confundem com práticas e elementos da vida comum. É o caso da ação em que o artista disponibilizou um serviço de xerox que realizava cópias gratuitas de materiais com a palavra “público”, ou do cartaz distribuído por Fortaleza com a inscrição “permitido”, seguindo o mesmo padrão visual das placas de trânsito, ou, ainda, da inscrição “artista é público” disposta em letras de alumínio no saguão de um centro cultural. Quem são os públicos da arte? Quais as relações entre artista e público? É possível constituir uma esfera pública por meio da arte? Discussões como essas permeiam os trabalhos de Vitor Cesar e parecem ganhar força na medida em que o contato com suas obras se dá sem a intermediação institucional da arte – isto é, sem que se saiba, necessariamente, que se tratam de projetos artísticos.

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- 8ª Bienal do Mercosul 

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