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terça-feira

29

novembro 2011

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Após Oi Futuro ter cancelado mostra de Nan Goldin por desaprovar parte do conteúdo sexual, MAM do Rio vai abrigar exposição

Escrito por , Postado em Eventos, Exibições, Exposições

Nan after being battered, 1984

Uma das fotógrafas mais aplaudidas da atualidade, com trajetória de 40 anos e presença em importantes museus de arte contemporânea, a norte-americana Nan Goldin nunca teve mostra individual no Brasil. O público carioca verá alguns de seus trabalhos mais emblemáticos entre 11 de fevereiro e 8 de abril de 2012 – mas isso só porque o curador do Museu de Arte Contemporânea (MAM), Luiz Camillo Osorio, conseguiu, de última hora, abrigá-los.

O Oi Futuro, que em 2010 selecionou a exposição em seu edital de patrocínio, e lhe destinou R$ 300 mil (a maior parte desse valor, já pago), decidiu cancelá-la na semana passada, por desaprovar parte de seu conteúdo: mais precisamente, a série Balada da Dependência Sexual (The Ballad of Sexual Dependency), talvez sua obra mais conhecida. A instituição concedeu o patrocínio sem ter examinado todo o material. A abertura estava marcada para 9 de janeiro.

São fotos de relações sexuais hetero e homossexuais, explícitas e em várias posições, de masturbação e de uso de drogas. Em algumas delas, crianças pequenas aparecem na cama ao lado dos pais, que se beijam e se acariciam, sem roupa.

Essas a artista já havia concordado em suprimir, em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente brasileiro (a lei proíbe o ato de “produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfica, envolvendo criança ou adolescente”).

As cenas, que já rodaram o mundo – inclusive integraram a última Bienal de São Paulo – , começaram a ser retratadas por Nan em 1976, em Nova York, em seu círculo de amigos, e foram publicadas num livro de arte dez anos depois.

Na última sexta-feira, a curadora da mostra, Ligia Canongia, participou de uma reunião com o curador de artes visuais do Oi Futuro, Alberto Saraiva, e um advogado da instituição, em que foi informada do cancelamento. Ela argumentou que as fotos consideradas “impróprias para menores” seriam mostradas no segundo andar, com sinalização (tal qual foi feito na Bienal), enquanto as séries Heart BeatThe Other Side e Empty Rooms, “próprias”, ficariam no primeiro e no terceiro.

“Eles não vão declarar jamais que é censura, estão tentando sair pela tangente de forma covarde. Mas me mandaram procurar outro lugar para a exposição. Um centro cultural não pode ser assim. Então abre uma creche”, disse Ligia ontem.

Pelo que apregoa o ECA, as imagens não seriam adequadas ao centro cultural do Oi Futuro, no Flamengo, por onde passam dezenas de crianças diariamente, em visitação escolar. “A missão do Oi Futuro é a promoção da educação, e nesse sentido, o instituto tem a praxe de avaliar o material que será exibido em seus centros culturais para se assegurar que haja uma relação entre as obras e os programas educacionais”, justificou a instituição numa nota.

Revoltada, Ligia enviou um e-mail para toda sua lista de críticos de arte e artistas informando o ocorrido. Um deles foi Camillo Osorio, que se solidarizou imediatamente e correu para não deixar Nan sem museu.

“Essa atitude me pareceu um passo atrás. As pessoas confundem a capacidade simbólica da arte com o real”, ele disse, ontem. “É curioso que a Benetton use foto do papa beijando um líder islâmico como estratégia de publicidade, e que o trabalho da Nan Goldin ainda cause polêmica. A arte nunca se absteve da polêmica.”

Por considerar que se trata de uma “exposição de relevância para a cidade”, o curador remanejou uma outra e lhe deu espaço. Mas Camillo Osorio quer antes entrar em acordo com o Oi Futuro. E haverá o cuidado com a sinalização para que crianças ou “pessoas sensíveis a cenas eroticamente fortes” sejam orientadas por monitores a não acessá-las.

Segundo a nota do Oi Futuro, a instituição “esteve durante toda a semana passada dialogando com os representantes da artista de forma a encontrar alternativas para a exposição da obra em outro ambiente. A última reunião sobre o tema foi interrompida, sem ser concluída”.

A curadora explica que saiu da reunião, muito nervosa, quando já havia sido definido que a exposição não seria aceita no Oi Futuro, como acertado em contrato. “A declaração deles é mentirosa. Não havia mais argumento possível para demovê-los”, contou.

“É a exposição de uma das maiores artistas da arte contemporânea que está sendo cancelada por questões que não têm nada a ver com estética nem poética, não têm nada a ver com arte. A Bienal exibiu sem corte, com a recomendação que era para maiores de 18 anos. Se você coloca essas fotos num site de pornografia, é uma coisa. Mas estamos falando de arte, e não da revista Playboy.”

Natural de Washington D.C., residente na louca Nova York dos anos 70 e 80, Nan Goldin tem 58 anos. Apresentados em geral em slide shows (como os que vêm ao Rio), seus trabalhos falam de amor, sexo, drogas, amizade, abandono, passando por um submundo de travestis, gays e viciados que nem todo mundo quer ver.

* Texto de Roberta Pennafort, publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 28 de novembro de 2011.

* Imagens: MoMa

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