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sexta-feira

8

março 2013

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O Movimento da Arte Pornô no Brasil: Eduardo Kac e o coletivo Gang

Escrito por , Postado em Arte Contemporânea, Destacadas, Eventos, Exposições, Fotografia Digital, Performance

Western+Club+-+OUT

Perder a forma humana. Uma imagem sísmica dos anos oitenta na América Latina, exposição organizada pelo grupo de pesquisa Conceitualismos do Sul,  chega ao fim nesta semana. A mostra, que esteve em cartaz desde outubro do ano passado no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia de Espanha, revisitou e complementou a história artístico-cultural dos países da América Latina, nos anos oitenta.

O objetivo era resgatar e apresentar, pela primeira vez em um museu, uma série de práticas artísticas ocorridas durante a década de oitenta em distintos contextos latino-americanos. A mostra pretendia outorgar visibilidade a episódios que buscaram formas de resistência política longe da militância tradicional, habilitando espaços alheios à instituição artística e gerando redes traduzidas em laços afetivos.

Participaram da mostra obras do coletivo Gang (Brasil), coletivo Cucaño (Argentina), coletivo TIT (Taller de Investigaciones Teatrales, na Argentina), coletivo Yeguas del Apocalipsis (Chile), coletivo Polvo de Gallina Negra (México), coletivo Bestiario (Peru), coletivo Los Ángeles Negros (Chile).

Na ocasião do início da exposição, uma série de encontros – Perder a forma humana. Conversa sobre os anos 80 na América Latina – deu voz aos artistas desses coletivos que impulsionaram a arte marginal em seus países.

O Brasil foi representado por Eduardo Kac e o coletivo Gang. Fotografias, documento e o único registro em vídeo da última performance do movimento na Praia de Copacabana foram exibidos em uma das salas do Reina Sofia.

UMA+TEMPORADA+NO+INFERNO+PANFLETO

Kac esteve presente em uma das sessões, revelando o cenário artístico-cultural no Brasil a partir das atividades desenvolvidas pelo coletivo Gang e, também, de seus trabalhos de artista nesse contexto.

Tendo como pano de fundo a ditadura, entre os anos 1980 e 1982, o coletivo Gang desenvolveu o Movimento de Arte Pornô no Brasil. Além de Kac, dentre os artistas que participaram do movimento de arte pornô no Brasil estavam Glauco Mattoso, Denise Trindade, Cairo Assis Trindade, Ulisses Tavares, Bráulio Tavares e outros.

fev+13+de+82+MANIFESTO

Kac ressaltou que o movimento tinha um caráter político muito forte, mas tinha, especialmente, uma intenção estética consciente, pois buscava-se desenvolver novas formas de poesia e de arte.

“Era aquele o momento em que se vivia uma espécie de ditadura artístico-literária”, acrescentou. “A sensação era de que tudo já estava feito. Contestar essa ideia do pronto e acabado era um dos desafios do coletivo”.

Western+Club+-+OUT

Após vencer um concurso nacional de poesia, em 1979, Kac buscou contatos para formar um grupo de artistas que desejassem criar algo novo, uma arte inovadora e diferente de tudo o que já tivesse sido feito até então. Desse desejo surge a arte pornô, que reúne dois universos aparentemente tão distantes – arte (sublime) + pornografia (maginal), o que, por si só, é impactante.

“O objetivo do movimento não era, para nada, fazer a pornografia comercial, a pornografia clássica. O objetivo era compreender a lógica da pornografia e trazê-la para um universo de subversão e fazer dela uma ferramenta de combate político.”

O coletivo Gang teve na poesia a sua principal forma de criação. No entanto, a poesia era levada aos espaços públicos, a espaços e contextos onde antes ela não se dava.

Careta+1

Assim, o coletivo realizou uma série de intervenções em locais públicos do Rio de Janeiro, entre eles a Cinelândia, onde se reuniam às sextas-feiras. A vivência do grupo foi documentada em três edições da revista Gang publicada em 1981. Também foi importante divulgador dos poemas o Jornal Dobrábil, de Glauco Matoso. O movimento do grupo de artistas “rebeldes”, então, naquele período, conhecido como “poesia pornô” ou “poema pornô”, e que teve repercussão pelas diversas partes do país e mesmo em Portugal, com a versão PornEx, ainda contou com a publicação de livros de bolso, adesivos, historia em quadrinhos e duas antologias: a Antologia do Poema Pornô, compilada por Leila Míccolis e outros e editada, em 1981, e a Antolorgia, de 1984, organizada por Eduardo Kac e Kairo Trintade.

Para Gang, a ação pública era fundamental, pois tanto permitia aos artistas explorarem o espaço que não existia, como a práxis possibilitava uma noção de corpo distinta.

PORNO+COMICS

O corpo não era apenas tema da arte. Tampouco era apenas meio para realização do ato poético; era ele próprio o espaço onde se dava o discurso, além de ser a temática da poesia. O corpo era “desvestido” e apresentado como um objeto livre de “pré-conceitos” e estigmas negativos a que estava, culturalmente submetido.

“O que interessava era o corpo vivido, de seus desejos verbais a seus prazeres textuais, de seus sons a seus movimentos, de sua forma a sua função, de seus comportamentos, desde o corpo social até o corpo individual, de sua carnalidade a sua carnavalização, de sua superfície até seus órgãos.”

Dentre as obras expostas no Museu Reina Sofia que representam o movimento de arte pornô no Brasil, estão:

 Filosofia_1981_fotografia_30 x 20cm (edição de 10)

1. Filosofia (1981): O poema “Filosofia: Para curar um amor platônico só uma trepada homérica” era impresso em adesivos colados pelo artista em locais públicos como banheiros e ônibus. Na imagem, o poema impresso na camisa do artista durante ato da performance na Cinelândia.

Overgoze (vertical)_1981_fotografia_30 x 20cm (edição de 10)

2. OVERGOZE: o poema de uma palavra única – verbo e substantivo fundidos em uma só forma vocabular – evoca: “morrer de paixão carnal”. O grafite era uma espécie de tatuagem no espaço público do Rio de Janeiro. Na imagem, uma das versões do poema.

 Mini saia rosa com piróculos_1982_fotografia_20 x 30cm (edição de 10)

3. Minissaia rosa com poemazóide (1982): Vídeo, único registro em vídeo do movimento. Foi a última intervenção do movimento antes de sua extinção. Nas performances, o artista usava uma minissaia rosa o que por si só já atribuía um tom irônico, provocador, desafiados e transgressor à figura do artista. O acessório era usado por Kac tanto em suas performances como em suas tarefas quotidianas, como ir ao supermercado.

4. A série de sete “Pornogramas” de Eduardo Kac criados no contexto do movimento. Os pornogramas eram poemas que mesclavam performance, fotografia, poesia e política do corpo. A arte era, efetivamente, a ação do corpo no espaço.

Pornograma 1 (Non Ducor, Duco)_1980_fotografia_49 x 73cm (edição de 3)

Pornograma 1 (Non Ducor, Duco), 1980: O corpo vertical. A letra “I”, “eu” em inglês, feita a partir da nudez do artista no 9º andar de um edifício diante de dois pilares sociais. Diante o 19º Batalhão de Polícia Militar. Ao fundo, a Igreja de Copacabana. “Non Ducor, Duco” significa “Não sou liderado, lidero”.

 Pornograma-2-(Hic-et-ubique)_1981_fotografia_49-x-73cm-(edição-de-3)

Pornograma 2 (Hick et ubique), 1981: O retrato do artista aos 18 anos com uma vagina. O trabalho cria uma nova forma de subjetividade: um homem com uma vagina, uma mudança de sexo sem que isso implicasse a mudança de gênero. “Hic et ubique” significa “Aqui e em toda a parte”.

Pornograma 6 (Ars Vivendi)_1982_fotografia_49 x 73cm (edição de 3)

Pornograma 6 (Ars Vivendi), 1982: O corpo como texto. O artista, a partir das dobras da pele, dá forma ao texto. No caso, as dobras da pele da vagina. Então, a primeira palavra VI, a segunda, ao inverter a forma e a fotografia, VIM, e repetindo a primeira parte do poema, VIVI. Logo, Eu “VI, VIM, VIVI”. “Ars Vivendi” significa “A arte de viver”.

Pornograma-7-(Ars-Poetica)_1982_fotografia_73,5-x-18,5cm-(edição-de-3)

Pornograma 7 (Ars Poetica), 1982: Conclusão da série “Pornogramas”. O último desenho do poeta: fazer sexo com o poema. O poeta efetivamente trepa com o texto, este também em cor de pele. A família de tipos, criada especialmente para esta obra, é baseada nas formas genitais humanas.

No Brasil, os Pornogramas de Eduardo Kac foram exibidos em exposição individual na Galeria Laura Marsiaj, em 2010.

Para entender um pouco mais do Movimento da Arte Pornô no Brasil, leia:

- Revista Careta. A primeira porno-entrevista.

- Porno Comics

- Revista Close: A passeata Pornô

@Imagens: cortesia Laura Marsiaj / Denise Trindade – Blog Movimento de Arte Pornô

4 Comentários

  1. miguel mesquita guimaraes

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