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terça-feira

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novembro 2011

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Poemas matemáticos de Wlademir Dias-Pino em exposição no Oi Futuro, até 20 de dezembro

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Com curadoria de Alberto Saraiva, o OI Futuro abriga a mostra de poesia visual de Wlademir Dias-Pino, criador do poema-processo e um dos mais importantes poetas brasileiros de todos os tempos. O artista apresenta, na Vitrine do Oi Futuro, a projeção de seus poemas matemáticos. A exposição pode ser vista até 20 de dezembro, de terça a domingo, das 13h às 21h.

Como sugestão de leitura sobre o trabalho do poeta visual, recomendamos o texto “Wlademir Dias-Pino contra o alfabeto”, de Suzana Velasco, publicado no blog “Prosa Online“.

Wlademir Dias-Pino contra o alfabeto

A obra mais recente do poeta Wlademir Dias-Pino não pode ser encontrada em livros. Tampouco pode ser “lida”, ao menos não no sentido convencional do termo. Intitulada “Poemas matemáticos”, ela é formada por um conjunto de gráficos multicoloridos e está exposta no Oi Futuro de Ipanema até 18 de dezembro. Na abertura da exposição, em 3 de outubro, centenas de gráficos foram projetados na fachada do prédio, à noite, e é possível que, aos olhos desavisados de quem passava pela Rua Visconde de Pirajá, aquela profusão de retas e curvas tenha parecido antes o sonho de um engenheiro que o trabalho meticuloso de um poeta que recusa o alfabeto.

Integrante de primeira hora do movimento concretista, nos anos 1950, e criador de obras que transitam entre a poesia, as artes plásticas e o design gráfico, Wlademir Dias-Pino continua, aos 84 anos, buscando novas formas de expandir para além das convenções categorias como “escrita” e “poema”. Em entrevista ao GLOBO no Rio, onde vive, ele repete com gosto a provocação que se tornou quase um lema de sua carreira:

— Eu sou contra o alfabeto — diz, meio irônico, meio a sério. — O código alfabético é uma arbitrariedade. Se ele estabelece que a letra “O” é redonda, eu não posso usar uma cruz no lugar dela. O código se tornou um modelo para todo raciocínio humano, sua carga arbitrária é uma escravidão. Assim como cada povo inventa sua língua, compete a cada poeta, no meu ideal, inaugurar uma escrita própria.

A escrita própria de Dias-Pino começou a tomar forma cedo. Nascido no Rio, em 1927, filho de um tipógrafo, ele brincava com os tipos metálicos da gráfica do pai antes mesmo de aprender a ler. Essa relação lúdica com a escrita está presente já em seus primeiros poemas, escritos durante a adolescência em Cuiabá, no Mato Grosso, onde a família desembarcou em 1936, fugindo da perseguição política ao pai anarquista.

A antologia “Wlademir Dias-Pino” (Aeroplano Editora e Oi Futuro), lançada por ocasião da exposição, reúne fac-símiles desses primeiros livros e percorre toda a carreira do artista. Estão ali suas obras mais conhecidas, como “Solida”, apresentada na Exposição Nacional de Arte Concreta de 1956, da qual participaram apenas seis poetas (Ferreira Gullar, Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ronaldo Azeredo e ele), e “A AVE”, considerada o primeiro livro-poema no Brasil. Estão ali também algumas das cinco mil recriações gráficas da letra “A” que fez desde os anos 1990 (“Quando falo mal do alfabeto, não é por despeito, é saturação”, brinca).

Didática e bem organizada, a antologia, porém, não aborda (e nem poderia) uma dimensão da obra de Dias-Pino que permanece inédita: o ambicioso e ainda inconcluso projeto da “Enciclopédia visual”, na qual o artista trabalha há décadas.

A utopia de um arquivo visual do mundo

O poeta que só pensa em imagens vive num sobrado de paredes brancas, sem quadros, numa vila centenária do Catete. As gravuras que reúne há décadas estão guardadas, aos milhares, em centenas de pastas organizadas por tema — “Feminino”, “Masculino”, “Arquitetura”, “Aberrações”, “Diabo” —, numa estante de metal cuja última prateleira só se alcança de escada. Elas são a matéria-prima da obra mais ambiciosa de Wlademir Dias-Pino, a “Enciclopédia visual”, projetada como uma coleção de 1.001 volumes, de 84 páginas cada, com intervenções gráficas sobre imagens coletadas em livros e revistas, em viagens pelo Brasil e pelo mundo.

Ao mesmo tempo um corolário de sua carreira como poeta e artista gráfico e um trabalho diferente de tudo que já publicou, a enciclopédia é, segundo Dias-Pino, um gigantesco “ensaio visual”. Cada volume oferece um passeio pelas representações visuais de determinado tema através de diversas épocas e culturas, sem preocupações didáticas. A pasta “Adão e Eva” reúne imagens do casal, de antigas Bíblias até o presente. Já “Escrita” guarda exemplos de alfabetos dos quatro cantos do mundo.

O poeta e crítico Adolfo Montejo Navas, curador de uma exposição de Dias-Pino no Oi Futuro em 2008, compara a “Enciclopédia visual” a um projeto igualmente grandioso do historiador de arte alemão Aby Warburg (1866-1929), o “Atlas Mnemosine”, coleção de imagens que também buscava estabelecer ligações entre representações visuais ao longo da História.

— O projeto de Warburg está em sintonia com o trabalho do Wlademir, de juntar imagens desconexas de distintas épocas. É um projeto quase utópico, de um arquivo do mundo — avalia Navas.

O atlas de Warburg ficou inconcluso — ou, antes, era um projeto que, por sua natureza livre-associativa, não tinha conclusão. O mesmo pode ser dito da “Enciclopédia visual”, e Dias-Pino é o primeiro a fazê-lo. A determinação de compor 1.001 volumes, ele explica, é uma alusão irônica às histórias sem fim que Sherazade contava para driblar a morte em “As mil e uma noites”. Aos 84 anos, ele continua elaborando a enciclopédia, como indica o material — gravuras, recortes, cola, tinta, papéis coloridos — que cobre a mesa de trabalho no segundo andar do sobrado, onde fez seu ateliê.

— É um trabalho infinito, que vai ficar inconcluso. Mas a gente não conclui nada na vida, nem a própria vida — pondera Dias-Pino, que tem a ajuda do sobrinho, Octavio, e da companheira, a poeta Regina Pouchain, na digitalização das obras, e se preocupa com a conservação do arquivo em casa, onde está ameaçado por infiltrações.

Apenas seis volumes da “Enciclopédia Visual” foram publicados, em tiragem reduzida, em 1990. Segundo Dias-Pino, as enormes dificuldades técnicas para produzir suas obras restringem a difusão de seu trabalho. Mesmo seus poemas mais conhecidos, como “Solida” e “A AVE”, estão há tempos fora de circulação. Por isso, a recém-publicada antologia “Wlademir Dias-Pino”, organizada por Regina Pouchain e Alberto Saraiva (curador da exposição em cartaz no Oi Futuro), oferece uma rara oportunidade para se acompanhar a evolução do artista ao longo de sete décadas.

Os títulos mais antigos incluídos na antologia, como “A fome dos lados” (1940) e “A máquina que ri” (1941), foram publicados por Dias-Pino ainda durante a adolescência, em Cuiabá. Embora sejam marcados por versos mais convencionais (“rosto humilde/ e murcho/ que tem como cor/ um silêncio/ amarrado então/ de rugas”, lê-se em “A fome dos lados”), esses livros já demonstram o interesse do autor pela variação tipográfica e pelo jogo entre mancha textual e espaços em branco. Com base nesses preceitos, em 1951, ainda em Mato Grosso, fundou o intensivismo, movimento literário que deixou poucos rastros.

Dias-Pino voltou em 1952 ao Rio, onde viveu pelas duas décadas seguintes o período mais fervilhante de sua vida literária. Nos primeiros anos, publicou obras que aprofundavam as técnicas intensivistas, como “Os corcundas” (1954). Mas foi com “A AVE”, um livro-poema pioneiro no qual trabalhava desde Cuiabá, que entrou no radar do então nascente movimento concretista brasileiro.

Obras em que o manuseio é essencial para a leitura

A dificuldade de descrever “A AVE” é provavelmente a melhor indicação de que, com ela, Dias-Pino deu um passo significativo para libertar sua obra da “arbitrariedade” do alfabeto, como gosta de dizer. No plano mais evidente, o livro é formado por um conjunto de versos (“A ave voa dentro de sua cor”, “Sua aguda crista completa a solidão”) com as palavras espalhadas pela página, ligadas por um traço negro contínuo. Mas é mais que isso. Os versos vinham em folhas soltas, numa caixa, com uma tabela com as palavras empregadas e versões que usavam elementos algébricos e geométricos para recompor o poema. Foram impressos apenas 300 exemplares, em 1956, e Dias-Pino nunca quis reeditar “A AVE”, por considerá-la quase uma instalação, em que o manuseio é essencial para a leitura.

A repercussão da obra (“Os críticos diziam: ‘Agora poema vem em caixinha?’”, ironiza Dias-Pino) credenciou o artista a participar do seleto grupo de seis poetas que integraram a Exposição Nacional de Arte Concreta, realizada em 1956, em São Paulo, e no ano seguinte, no Rio, e onde predominavam artistas plásticos como Amilcar de Castro, Hélio Oiticica e Alfredo Volpi. Mesmo então, a poesia concreta já não era um movimento coeso, com muitas diferenças entre o grupo paulista, formado pelos irmãos Campos e Décio Pignatari em torno da revista “Noigandres”, e um grupo carioca mais disperso, no qual se destacava Ferreira Gullar.

Dias-Pino levou para a exposição a primeira versão de “Solida”, que radicalizava os procedimentos desenvolvidos em “A AVE”. Em uma série de painéis, o poema explorava todas as combinações possíveis das seis letras da palavra-título, formando a frase “Sólida solidão só sol saído da lida do dia”. Uma versão posterior do poema vinha também “em caixinha”, com as letras da palavra “Solida” correspondendo a áreas demarcadas em quadrados de papel. As combinações eram feitas pelo manuseio dos quadrados. Cada palavra se tornava uma pequena escultura de papel.

Gullar recorda que os trabalhos do artista se destacavam pela exploração gráfica sem igual entre os concretistas:

— O Wlademir foi além da poesia concreta, com um trabalho gráfico que tinha a marca de uma sensibilidade muito aguda — diz o poeta, que pouco depois da exposição liderou a ruptura com o grupo paulista e a criação no Rio do movimento neoconcreto, do qual Dias-Pino não participou. — A originalidade do Wlademir fez com que ele desenvolvesse um caminho próprio.

Movimento de vanguarda separou poesia e poema

Esse caminho começou a se delinear em 1967, quando Dias-Pino fundou o movimento Poema Processo, que teve a adesão de dezenas de poetas em todo o país. Muitos se conheceram depois de serem desclassificados em um concurso porque suas obras “não eram poesia” segundo o júri. Cristalização das reflexões de Dias-Pino, os manifestos do grupo propunham uma separação entre poesia e poema — a primeira seria apenas uma das muitas formas em que o segundo pode se manifestar. A poesia era só um punhado de versos, mas o poema podia estar na arquitetura, na escultura, na matemática, num gesto individual ou coletivo, em imagens.

Nessa época, o trabalho de Dias-Pino se concentrou em colagens com recortes de revistas e jornais e imagens mais abstratas. Outros artistas criaram obras como a sigla do FMI formada por minúsculos cifrões, instruções para um poema-casa, um pão repartido coletivamente no Aterro do Flamengo. Em janeiro de 1968, um grupo rasgou livros de Drummond e Cabral nas escadarias do Teatro Municipal, acusando-os de serem “poetas discursivos”.

O movimento Poema Processo terminou em 1972, com a publicação do “Manifesto de parada tática” e, depois disso, Dias-Pino publicou pouco. Mas não parou de produzir:

— Quando a gente está na vanguarda, você tira um poema do bolso e o outro diz: “Mas que coisa fantástica! É desmontável!” É tudo uma emoção, tudo muito acelerado. A vanguarda é uma explosão. Mas eu preferi ficar quieto e guardar o que fiz. Só publiquei o que quis deixar registrado — diz Dias-Pino, que calcula que os inéditos guardados chegam às centenas.

No fim dos anos 1970, voltou para o Mato Grosso. Só se instalou definitivamente no Rio nos anos 1990. Sua produção nesse período envolve um conjunto de “poemas-conceito”, em que imagens semelhantes às da “Enciclopédia Visual” ganham legendas poéticas, e as séries “Numéricos” e “Poemas sem palavras”, que se aproximam do uso das ciências exatas observado nos “Poemas matemáticos” exibidos no Oi Futuro. Também deu aulas de comunicação visual no Rio e no Mato Grosso, trabalhou com diagramação de revistas e publicou, em 1974, o livro “A marca e o logotipo brasileiros”, referência entre designers até hoje.

Obra artesanal dificulta reprodução e divulgação

A amplitude e a originalidade do trabalho de Dias-Pino fizeram com que Augusto de Campos, no auge do concretismo, se referisse a ele como “Poesia e/ou pintura”. Indo mais longe, o próprio Dias-Pino se orgulha de um verbete de enciclopédia que o define como um artista “que não faz diferença entre gêneros”.

Para o professor da Universidade de Brasília Rogério Câmara, que fez um levantamento de sua obra no site <www.enciclopediavisual.com>, ele só não é tão lembrado hoje quanto os colegas de movimento devido ao caráter “essencialmente artesanal e de difícil reprodução” de suas criações, ao contrário de obras como os poemas-cartazes do grupo Noigandres. Mas o legado de Dias-Pino, acredita Câmara, é central para a poesia e as artes visuais brasileiras:

— A vida inteira Dias-Pino investiu num pensamento visual e gráfico que resultasse do olhar direto sobre as coisas. Numa entrevista, ele me disse algo fundamental para compreendê-lo: “A arte no fundo não existe, o homem a vê. É só isso que existe — o ver do homem”. Este seria o fundamento e o legado de Dias-Pino, um olhar aberto e direto sobre o mundo.

Com curadoria de Alberto Saraiva, o OI Futuro abriga a mostra de poesia visual de Wlademir Dias-Pino, criador do poema-processo e um dos mais importantes poetas brasileiros de todos os tempos. O artista apresenta, na Vitrine do Oi Futuro, a projeção de seus poemas matemáticos. A exposição pode ser vista até 20 de dezembro, de terça a domingo, das 13h às 21h.

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