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sexta-feira

5

abril 2013

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A nova cultura

Escrito por , Postado em Arte e Cultura, Destacadas, Notícias

Real-Humans
A velha cultura do humanismo, aquela que coloca o homem no centro de todas as coisas, está em franca decadência. Está, aliás, bastante decadente, como se pode observar pela indigente produção cultural da atualidade, que não pára de repetir obsoletas ideias e processos.
Real-Humans
A velha cultura tornou-se num campo de resistência contra tudo o que possa perturbar a visão piegas, ingénua e lírica do humano. Mas se o velho resiste, o novo ainda não se afirmou com clareza. Talvez porque a natureza da mudança dificulta a perceção do que realmente está a ocorrer. É que essa mudança já não tem o homem ao comando. Emergiu um novo agente transformador. A máquina.

Até recentemente, e a maioria ainda pensará assim, as máquinas eram vistas como meras ferramentas, totalmente controladas por nós, sem qualquer vontade própria. Sucede que a revolução digital tem vindo a produzir um novo tipo de máquinas. Combinando regras e algoritmos com componentes aleatórias e processos emergentes, estas máquinas de tipo novo geram também verdadeira novidade, aquela que não está presente nos dados iniciais, nem pode ser prevista. Ou seja, existem agora máquinas imprevisíveis, fora do nosso controlo. Máquinas com algum grau de autonomia, com “vida” própria, portanto.

Do simples computador à robótica, estas máquinas são capazes de avaliar uma determinada situação, tomar a decisão mais apropriada e, algumas, aprender com isso. No campo mais especificamente criativo, temos máquinas a gerar composições, formas, soluções e processos praticamente sem intervenção humana. São uma ajuda fundamental em qualquer produção artística, na arquitetura ou no design, mas também na música, no cinema, nos jogos, enfim, em praticamente todas as áreas criativas. Através de programas, mas também de extraordinárias capacidades produtivas, como é o caso das emergentes impressoras 3D, estas máquinas resolvem problemas, inventam coisas, criam na verdadeira aceção da palavra. Ou seja, estamos a assistir à ascensão das máquinas inteligentes e criativas.

Ao passarem de meras ferramentas a parceiros de trabalho ou, mesmo, a produtores independentes, estas máquinas estabelecem uma relação completamente diferente com os humanos que se associam a elas. Já não são simples escravos ocasionalmente úteis, mas vivem agora em simbiose connosco. Não conseguimos mais funcionar sem elas.

Esta nova condição entranhou-se de tal maneira nas nossas existências que não nos damos conta da sua importância. Continuamos a imaginar que somos autónomos, quando na verdade estamos cada vez mais dependentes destas entidades artificiais que determinam, mais do que tanta outra coisa, as nossas vidas e a nossa realidade. Basta, contudo, uma avaria no computador ou no telemóvel para se perceber o quanto estamos literalmente ligados às máquinas. Como nos cuidados intensivos, sem essa ligação desfalecemos.

As máquinas alteram processos e modos de funcionamento. Gerem redes de todo o tipo, operam empresas tecnológicas, montam sistemas muito sofisticados. Mas vão mais longe. Estão também a modificar a essência do próprio ser humano. Por sua influência, somos cada vez mais homens-máquinas, quer como comportamento, quer por via de interações, próteses, intervenções cirúrgicas, manipulações corporais, genéticas ou simplesmente dependentes da sua ajuda e cooperação permanentes. E sem qualquer problema. Nós queremos ser máquinas, somando ao biológico aquilo que de melhor existe no artificial. Quem não quer viver mais tempo, ser mais inteligente, mais criativo?

A velha cultura está assim a dar lugar a uma nova cultura que não só questiona a centralidade do humano como, em boa verdade, não é mais exclusiva e inteiramente humana. A nova cultura é combinatória, mistura entidades distintas, exprime características muito diferentes, quase antagónicas. Estamos a meio de um processo de fusão entre natural e artificial, que vai dando origem a seres híbridos em que se torna difícil distinguir que parte pertence a quê ou a quem. É essa a nova cultura e tem forçosamente de se exprimir de outra maneira.

* Texto de Leonel Moura, publicado em Jornal de Negócios, no dia 28 de março de 2013.

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