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terça-feira

13

março 2012

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Ciborgue

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ciborgue

Todo começo de ano São Paulo recebe a Campus Party, o maior evento de tecnologia do mundo. E eu estou sempre lá, aprendendo e observando. Das minhas observações resultaram estas crônicas. A partir da realidade vivenciada elas se formam, misturadas com a imaginação. E revelam as motivações mais humanas que caminham lado a lado com a tecnologia. Em 2012 o artista britânico Neil Harbisson falou para milhares de campuseiros interessados em conhecer o primeiro ciborgue do mundo. Neil não percebe as cores, ele as ouve. Um chip implantado em seu cérebro fez dele o primeiro ser a misturar sua humanidade com as máquinas. Sua percepção única da realidade foi o tema de sua fala. Na crônica a seguir, a primeira de uma série, o ciborgue é apenas o pano de fundo de uma estória que mostra que podemos levar as misturas da nossa humanidade muito mais longe…

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Ela foi sem mim. Segurava o braço da mulher que a guiava. Eu faria melhor, claro; iria mais pra direita pra ela ter mais espaço pra passar pela porta. Mas eu tive de ficar esperando. Será que se eu fosse uma cadela, em vez de um cachorro, me deixavam entrar com ela no banheiro? Às vezes não entendo as regras dos humanos… e eles tem regras pra tudo, até pra festa! Aqui é uma festa mas todos ficam estudando o tempo todo, grudados em seus computadores, como se fossem uma coisa só. Regras diferentes! Os dois magrelos cabeludos a quem ela pediu pra cuidar de mim são legais, tô cuidando deles também. Mas as pessoas que passam parecem inofensivas, sorriem pra mim. Sinto o cheiro da volta dela. Ela voltou! Vamos! Ela veio aqui por causa do menino-ciborgue, um que ouve cores. Ela quer ouvi-lo; queria mesmo poder ver os sons, ver tudo, eu sei. Essa noite ela sonhou que era uma menina-ciborgue que enxergava sons. Eu dormia ao pé da cama, deu pra ver o sonho direitinho. Meu latido era dourado como meu pêlo, assim ela me via. A palestra vai começar. Vou levá-la pra frente do palco, assim ela ouve bem o menino. Gostei dele, pensamentos bonitos. Ele é um ciborgue porque é humano misturado com máquina… assim como o pessoal da festa e seus computadores… aqui tá cheio de ciborgues! Eu e ela também somos misturados. Será que ela sabe? Ela tá sorrindo agora, mas o rosto dela não tá olhando pro menino, tá olhando pra mim. Ela sabe. E minhas dúvidas são como cócegas que a fazem sorrir. Fico feliz. Se ela vê o mundo através dos meus olhos, agora deve estar vendo tudo dourado e luminoso.

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