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quarta-feira

18

janeiro 2012

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Líder espiritual do Copimismo, a Igreja do “Ctrl C + Ctrl V”, diz que Brasil já segue crenças da religião

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igreja-kopimism

“Copie e semeie”. Essa mensagem é considerada sagrada para Igreja Missionária do Copimismo, que prega a cópia e o compartilhamento de arquivos. Em poucas palavras, é uma espécie de culto ao “Ctrl C + Ctrl V”. Para compreender melhor os preceitos e práticas do Copimismo, o UOL Tecnologia entrevistou o seu líder espiritual, o sueco Isak Gerson, de 19 anos (veja abaixo).

A palavra Copimismo é um neologismo em português para “Kopimism”, que por sua vez tem origem no termo “kopimi”, que soa como “copy me” (copie-me, em inglês).  Assim como uma religião comum, ela possui hierarquia, missas e orações – chamadas por Gerson de “encorajamentos”.

 Mas as semelhanças param por aí: no lugar de uma Bíblia, os copimistas têm uma Constituição (que já ganhou tradução para o inglês). Outro ponto controverso para quem segue a religião é a compra e venda de material com direitos autorais (como um DVD ou um software), prática em desacordo aos preceitos copimistas, se levados “ao pé da letra”.

Segundo Gerson, a organização religiosa foi reconhecida e legalizada pelo governo da Suécia;  o jovem mostrou ao UOL Tecnologia o documento de registro. A Agência de Serviços Administrativos (em sueco, Kammarkollegiet) também confirmou a inscrição e explicou, por e-mail, que desde 2000 registra comunidades religiosas no país; isso protege o nome dessas organizações e permite que recebam ajuda governamental para calcular taxas cobradas de membros.

Depois do anúncio, que ganhou o noticiário mundial, os missionários copimistas conseguiram em menos de duas semanas seguidores em outros treze países (Estados Unidos, Canadá, Dinamarca, França, Grécia, Índia, Japão, Israel, Itália, Holanda, Nova Zelândia, Romênia e Rússia).

Gerson afirma que a igreja já possui cerca de 4 mil membros, alguns deles brasileiros – embora o país ainda não esteja listado no site oficial dos religiosos. O Brasil, aliás, ganhou elogios do líder espiritual. “Pelo que vejo no noticiário, o Brasil parece ser um país bem copimista. Vocês parecem estar anos a frente do que nós”, comentou.  

O jovem sueco, estudante de Filosofia na Universidade Uppsala, trabalha como contador para o movimento estudantil cristão. Ele teria sido “escolhido” pelos seus pares como líder espiritual.  Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida por e-mail:

Você seguia alguma outra religião antes de criar Copimismo

Sim, eu era cristão e ainda sou cristão. E eu não criei o copimismo, aliás. Eu apenas fui eleito como líder espiritual pela organização.

Por que criar uma religião em vez de uma organização não-governamental?

A religião já existia. Ela estava lá há anos. Nós achamos que uma igreja seria a melhor forma para organizar nossas práticas religiosas, então fundamos a igreja.

Quantos seguidores vocês têm na Suécia? E no mundo? Já existem brasileiros seguindo vocês?


Não sei quantos suecos ou brasileiros, mas nós temos cerca de 4 mil membros. Sei que existem alguns seguidores no Brasil, mas não tenho como precisar a quantidade. Nós não registramos a nacionalidade deles.

Vocês tentaram obter o reconhecimento do governo sueco três vezes. O que deu errado no início e como tiveram sucesso na última tentativa?


No começo, o governo achou que tínhamos que esclarecer alguns dos documentos, nos quais descrevíamos nossas práticas, para sermos reconhecidos como uma organização religiosa. No último minuto, falhamos apenas por formalidades. Quando tudo foi corrigido, nós conseguimos o reconhecimento.

Vocês têm planos de serem reconhecidos em outros países? Existe algum processo legal em andamento em outras partes do mundo?

Eu não tenho, mas espero que todas as igrejas fundadas em outros países façam isso. Realmente não sei o que eles andam fazendo. Somos uma organização bem vertical [cujas decisões são tomadas em grupo], tanto nacional como internacionalmente.

Por que vocês têm uma “Constituição” em vez de um “livro sagrado” ou uma “lista de crenças”?


A Constituição é mais uma descrição de como nossa igreja funciona. Nós não temos um livro sagrado porque nós vivemos numa tradição extensa de ideias que ainda foram resumidas em um único livro.

O que vocês querem dizer com “a internet é sagrada” na sua Constituição? Recentemente, houve a discussão em redes sociais que a internet não seria nem mesmo um direito humano, o que acha disso?


A internet é sagrada porque é o meio ideal para copiar informações. Acho que temos de separar a discussão sobre a santidade da internet da discussão de que ela deveria ser um direito humano. Mas acredito que a internet como um direito humano também é uma boa ideia.

O que significa para vocês “o código é lei”?


O código, mais que uma lei, determina os termos da nossa existência. Estamos mais restritos pela existência de um código ao nosso redor do que propriamente pelas leis. Leis são fáceis de contornar; já o código é muito mais difícil.

O Copimismo possui uma missa? Como ela funciona?


Sim, nós celebramos o “ato de copiar”. Nós nos conectamos uns aos outros por meio de um servidor, página web ou em uma sala física. Começamos então a copiar arquivos uns dos outros. Antes de desconectar, nós encorajamos mutuamente a disseminar a informação para outras pessoas.

O Copimismo tem alguma hierarquia?


Infelizmente, ainda temos de ter alguma hierarquia. Mas tentamos não ter uma hierarquia maior do que o governo exige de nós. Por exemplo, eles exigem que tenhamos um conselho. Acho que o Copimismo é melhor quando não há essa hierarquia.

 “Copie e semeie” e “Nós somos muitos” são frases que podem ser interpretadas como preces ou santas?


Elas são como um encorajamento espiritual que damos uns aos outros.

De acordo com sua Constituição, os copimistas têm de viver em estrito acordo com os valores ali descritos. Seria uma violação se um copimista comprasse um livro, DVD ou software protegido por direitos autorais?


Acho que não. Entretanto, vender livros ou DVDs com direitos autorais provavelmente seria uma violação. Mas claro, é problemático apoiar a indústria dos direitos autorais.

Vocês têm receio de não serem reconhecidos como uma religião séria dada as características únicas dela?


Sim, mas também é o que eu espero. Sei que muitas religiões foram desacreditadas em seus primeiros anos.

Algumas religiões têm problemas com dissidência extremista. Temem que isso aconteça no Copimismo?


Uma das boas tradições do Copimismo é a pluralidade que tem origem no ato de copiar. O Copimismo é um movimento bem amplo. Claro que existem e provavelmente existirão extremistas. Entretanto, não vejo risco dos copimistas serem violentos.  A única coisa que podemos esperar é “cópia hardcore”.

Você tem uma mensagem especial para o público brasileiro?


Pelo que vejo no noticiário, o Brasil parece ser um país bem copimista. Vocês parecem estar anos a frente do que nós nos debates sobre Commons [Creative Commons] na cultura e patentes na medicina. Vejo vocês como um modelo de país. Continuem assim!

Via @UOL Tecnologia

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