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segunda-feira

19

março 2012

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O Coração do Homem de Lata

Escrito por , Postado em Destacadas, Notícias

HomemDeLata

A Robótica está cada vez mais acessível. Hardwares livres e o vivo interesse de muitos jovens fazem com que esta ciência esteja presente em todos os eventos de tecnologia, como a Campus Party. Competições de robôs atraem muitos olhares, e os competidores e suas engenhocas são vistos como verdadeiros lutadores. Algumas vezes, são mesmo…

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A dor que sentia não tinha precisão. Era uma dor difusa, desprovida de origem e lugar. Seu coração acelerava, e ele se esforçava para manejar o controle remoto. No ringue, a luta se fazia feroz. Robôs de todos os tipos e formatos utilizavam os mais diversos truques e armas que a imaginação de seus criadores, outros garotos como ele, tornou realidade. Seu robô enfrentava momentos difíceis, acuado por uma engenhoca grande, gorda e barulhenta. Ao redor, dezenas de olhos assistiam a batalha. Mas os olhos que mais se faziam presentes não estavam lá. Esses olhos distantes não só olhavam, como julgavam, e seu vermelho constante prometia ao fracasso as piores punições. Não que eles se importassem realmente. Parte de uma carcaça grande, gorda e barulhenta que passava os dias afundada em uma poltrona velha com uma lata de cerveja na mão, eles vociferavam: “Por quê vendeu sua bicicleta? Pra comprar ingresso pra uma tal festa? Pra que gastar dinheiro nessas revistas idiotas de robótica? Tanto dinheiro perdido em lan house! Competição de robôs, ah, com essa sua lata velha? Vai perder, moleque de lata!”. A palavra dinheiro era sempre muito citada, embora a carcaça nunca tivesse nenhum, pois convertia todo dinheiro que lhe chegava em cervejas, que mantinham seus olhos sempre vermelhos. Às vezes o coração do garoto se compungia daquele apego à decadência. Outras vezes se revoltava, quando se percebia arrastado para ela. Essas lembranças cruzaram a mente  do garoto criando um hiato no tempo. A sua frente a luta parecia congelada. Seu coração parecia congelado. Mas então bateu, bateu forte. Foi com olhos vermelhos que ele olhou para a engenhoca grande, gorda e barulhenta que ameaçava seu robô. Com um movimento rápido no controle remoto, esquivou-se dela. A dor sumiu. E ele então soube seu lugar e origem. O coração antes acelerado agora batia ritmado e impunha seu ritmo à vida, confiante. A batalha prosseguia.

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