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domingo

6

novembro 2011

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A caminho, a “próxima natureza”

Escrito por , Postado em Próxima Natureza

proxima natureza

A imagem do feto segurando um aparelho móvel compõe o artigo “What is Next Nature?” (O que é a natureza?), de Koert van Mensvoort, que busca explicar, em síntese, o conceito de “nex nature” (próxima natureza) e os objetivos do site homônimo. “Próxima natureza” é um conceito da filosofia pós-moderna cunhado pelo designer artístico e cientista Koert van Mensvoort no ensaio “Exploring the next nature” (2004). De acordo com Mensvoort, temos construído uma visão romantizada da natureza como uma entidade equilibrada e harmônica. Contudo, ações do homem tem impacto direto na natureza que é dinâmica e muda com a gente.

A natureza é, pois, um produto da cultura. Nanotecnologia, biotecnologia, manipulação genética, ambientes virtuais, engenharias de tecido, neurociência, arquitetura de softwares, software social são campos recentes de investigação que interferem  no nosso cotidiano e alteram, perceptivelmente, a noção do que é “natural”. Assistimos, portanto, cada vez mais, à fusão da tecnologia e da natureza. Afirma, então, Mensvoort, que a percepção da natureza no sentido de árvores, plantas, animais, átomos e climas não se sustenta mais no mundo atual.

Ao passo que vamos remodelando a natureza e o nosso ambiente a partir de produtos culturais (edificações, estradas, supermercados, parques temáticos, aeroportos, praças), deixamos de ver com estranheza determinados fenômenos. Nas palavras de Max Weber (in Mensvoort, 2004), desmistificamos o mundo exterior. Contudo, paralelamente a este ambiente que já nos é comum, de vivência da experiência real da natureza cultural, estamos vendo com “estranheza” o mundo futuro que vai se revelando no presente.

As noções de “natureza” e de “cultura” estão abaladas. Vivemos, conjuntamente, em um mundo de redes visíveis (o que é concreto aos nossos sentidos) e de redes invisíveis (conexões virtuais) que cada vez mais vão se amalgamando, chegando a tal ponto que já não se pode falar em fronteiras perceptíveis entre mundo real e virtual. Isso muda nossa percepção de natureza, enquanto ambiente, mas também a nossa própria noção de “natureza” humana.

Ainda em 1997, o pesquisador Rogerio da Costa (in Domingues, D.) se questionava o que ainda havia de humano em nós. Tornamo-nos híbridos, modificamos nossa essência humana a partir da integração com o mundo tecnológico, nano e biotecnológico; criamos seres maquínicos, autônomos, capazes de superar-nos em determinadas tarefas; modificamos geneticamente animais e plantas que passam a co-habitar com nós humanos a natureza.

Assim, inventamos e reinventamos a natureza. Para Mensvoort, não é difícil imaginar que o oposto possa acontecer: a cultura possa se tornar a natureza. À medida que os eventos possibilitados pelas tecnologias, nano e biotecnologia  passam a ser “autônomos”, tornam-se apenas mais um elemento de nossa natureza. Exemplo simples são os celulares. Anos atrás apenas existiam. Hoje cada um tem o seu. Para 2015, a Cisco prevê que celulares e outras tecnologias móveis existam em maior quantidade do que humanos no planeta. Enfim, Mensvoort acredita que pensar a “próxima natureza” torna-se algo real e necessário, pois nos permitirá compreender como podemos projetar, construir e viver nessa natureza.

As questões propostas por Mensvoort são imprescindíveis para a tomada de consciência de que estamos a caminho de uma “próxima natureza”. No entanto, observar a mudança dessa “natureza” é considerar apenas uma parte de um todo que ainda mais complexo. O homem altere permanentemente a natureza, mas todas as transformações pelas quais passa a natureza alteram, também permanentemente, não apenas as sensibilidades humanas mas, sobretudo, as relações do homem consigo mesmo, com o outro e com o seu entorno. Se a “próxima natureza” pressupõe considerar a fusão do tecnológico com a natureza, isso pode significar também diluir as fronteiras entre homem e natureza. Tanto a cultura passa a se tornar natureza, como o inverso deve ser considerado, e em uma condição de ocorrência mútua. Dessa forma, acreditamos que se torna necessário dar-se conta de que não basta pensar “como” viver nessa natureza.

É preciso dar-se conta de que não apenas estamos a caminho de uma “próxima natureza” como estamos em processo de formação de uma nova ecologia, a qual buscamos denominar “ecologia das redes”. Por ecologia entende-se o estudo das complexas interrelações entre seres vivos e o meio ambiente, este entendido como o ambiente físico que nos rodeia. Contudo, por que apontar para uma nova ecologia? Justamente porque a “próxima natureza” é marcada pela coexistência de ambientes físico e virtual. Não apenas interagimos no ambiente físico e real, como também no ambiente virtual e tecnológico.

As tecnologias, a nano e a biotecnologia estão definindo, assim, a ocorrência de novos ecossistemas mais complexos e com dinâmicas próprias que possibilitem remodelar as relações de interação entre os seres e o entorno. A coexistência de dois mundos, cada vez tornando-se um único ambiente híbrido (real e virtual), tanto altera nossa sensibilidade com as relações vividas em um e outro mundo passam a afetar a percepção que temos de nós mesmos, nossa relação com o outro (humano ou não humano) bem como com o entorno.

Um exemplo atual são os impactos das redes sociais em nossas relações com os demais e com o entorno. As redes sociais vem revolucionando a dinâmica de organização da sociedade. De fato estamos acompanhando muitas mobilizações sociais que tiveram seu “embrião” nas redes (manifestações políticas na Líbia e no Egito, 15M e 19J na Espanha, marcha da liberdade no Brasil…), formas de controle de governo proibindo acesso de seus cidadãos à internet a fim de evitar a organização de ações mobilizatórias através das redes sociais; isso sem deixarmos de assinalar todo o demais: ciberativismo, ciberguerra, ciberataques… De fato, trata-se de uma verdadeira revolução, pois cada vez nos damos conta de como já estamos todos conectados em redes e esse processo é já irreversível.

Contudo, redes sociais e toda essa “revolução” é apenas uma parte do todo. Tudo isso é apenas um dos pontos centrais para a compreensão de que nossos modos de organização e de interação no ambiente e tudo o que o compõe coloca em xeque todas as formas de organização anteriores. Todos os eventos mais recentes nada mais apontam que, de fato, vivemos em uma sociedade em redes, de interação compartilhada e de distribuição de conhecimentos, que, por consequência promove a dissolução das hierarquias e formas de controle, rompendo com barreiras antes “aparentemente” tão bem definidas.

Logo, pensar a “próxima natureza” é mais do que buscar compreender como podemos “construir, projetar e viver” nela, mas sim entender de que modo as novas relações interativas vão definindo novas dinâmicas de organização, comunicação e interação. Compreender como, ao afetar a natureza e modificá-la com nossos produtos culturais, também afetamos de modo sem precedentes nosso “estar” e “viver” no mundo.

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